Minha sogra cortou meu cabelo antes do doutorado — então meu pai se levantou

precisa dizer a verdade para você.

Renato desviou os olhos.

— Que verdade?

— Você não vai amanhã.

Helena pensou ter entendido errado.

— Não vou aonde?

— À universidade.

Márcia disse aquilo como se informasse que uma consulta havia sido cancelada.

— Sua obsessão já passou de todos os limites.

Você mal cuida do marido, vive fechada no quarto e agora quer aparecer diante de um monte de professores como se fosse mais importante do que a própria família.

Helena olhou para Renato.

— Você pretende dizer alguma coisa?

Ele soltou uma risada fria.

— Talvez minha mãe esteja dizendo o que eu deveria ter dito há meses.

O silêncio foi pior do que um grito.

— Oito anos — Helena respondeu.

— Amanhã eu vou defender oito anos da minha vida.

— Exatamente — Renato disse.

— Oito anos em que tudo precisou girar em torno de você.

Helena sentiu algo se reorganizar dentro dela.

De repente, lembrou-se das vezes em que ele reclamara ao vê-la receber elogios.

Das noites em que mudava de assunto quando ela falava de uma publicação.

Da forma como ficara irritado quando ela recebera uma proposta para concorrer a uma vaga de pesquisadora em outra universidade.

Talvez não fosse apenas cansaço.

Talvez fosse ressentimento.

— Não vou discutir isso hoje — disse ela.

Tentou passar por ele.

Renato segurou seu braço.

— Me solta.

— Você vai ouvir.

— Renato, me solta agora.

Ele apertou mais.

Foi então que Helena ouviu um pequeno som metálico atrás de si.

Virou o rosto a tempo de ver Márcia levantando uma tesoura.

O primeiro corte veio antes que ela pudesse reagir.

Um tufo comprido caiu sobre o piso claro da cozinha.

Helena congelou.

— O que você fez?

Márcia aproximou a tesoura novamente.

— Estou tentando fazer você entender onde é seu lugar.

Outro corte.

Helena gritou e tentou puxar o braço, mas Renato continuou segurando.

— Para!

Mais cabelo caiu.

— Nenhuma banca vai levar você a sério desse jeito — Márcia disse.

— Amanhã você fica em casa e aprende que escolhas têm consequências.

Helena girou o corpo com força suficiente para escapar.

Correu para o banheiro e trancou a porta.

A imagem no espelho fez seu estômago se contrair.

Um lado do cabelo estava muito mais curto que o outro.

Havia falhas perto da nuca e uma faixa irregular acima da orelha.

Algumas mechas continuavam presas no ombro de sua camiseta.

Ela tentou respirar.

Do outro lado da porta, Renato bateu duas vezes.

— Helena, abre.

Ela não respondeu.

— Minha mãe perdeu a cabeça.

Vamos conversar.

Então a voz de Márcia surgiu ao fundo.

— Não peça desculpas.

Ela precisava de um choque.

Helena deslizou até o chão.

Chorou em silêncio por alguns minutos.

Não pelo cabelo.

O cabelo cresceria.

O que doía era perceber que o homem com quem dividira sete anos havia participado conscientemente daquela humilhação.

Ele poderia ter impedido.

Em vez disso, segurara seu braço.

Helena pegou o celular.

Abriu uma conversa com o pai.

Ficou olhando para a tela durante vários segundos.

Então escreveu: “Pai, amanhã, aconteça o que acontecer, não deixa ninguém me convencer a desistir.”

Não explicou mais nada.

Depois chamou um carro.

Colocou a tese, o computador, os documentos e uma muda de roupa na

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