Minha sogra cortou meu cabelo antes do doutorado — então meu pai se levantou

— Minha mãe está com dívidas.

— Então você decidiu pagar usando meu dinheiro?

— Nosso dinheiro.

— Sem me contar.

— Você diria não.

— Exatamente.

Márcia bufou.

— Eu sou mãe dele.

Família ajuda família.

Helena a encarou.

— E eu era o quê?

Márcia não respondeu.

A porta da sala abriu.

A presidente da banca entrou com os outros dois professores.

Perceberam imediatamente que havia algo errado, mas a professora manteve o tom formal.

— Helena, concluímos nossa deliberação.

Por um instante, todos ficaram imóveis.

A professora sorriu.

— Sua tese foi aprovada por unanimidade.

Os aplausos começaram atrás de Helena.

Ela fechou os olhos.

Oito anos.

Oito anos terminavam ali.

Professora Lúcia a abraçou primeiro.

Antônio veio logo depois, com lágrimas nos olhos.

— Sua mãe estaria insuportavelmente orgulhosa — sussurrou.

Helena riu e chorou ao mesmo tempo.

Quando se virou, Renato ainda estava perto da porta.

— Parabéns — disse ele.

A palavra soou absurda.

Helena guardou os extratos na pasta.

— Você vai receber notícias do meu advogado.

Márcia soltou uma risada amarga.

— Vai destruir seu casamento por dinheiro e cabelo?

Helena caminhou até ela.

— Não.

Meu casamento acabou quando vocês decidiram que eu precisava ser humilhada para continuar cabendo nele.

Renato se aproximou.

— Helena, você está abalada.

Vamos conversar em casa.

— Eu não vou voltar para aquele apartamento.

— Você não pode simplesmente decidir isso agora.

— Posso.

Ele baixou a voz.

— Depois de tudo que fiz por você?

Helena olhou para ele por alguns segundos.

— Essa é a parte mais triste.

Eu passei anos agradecendo coisas que você fazia enquanto secretamente se ressentia de cada passo que eu dava.

Renato desviou o rosto.

Ela saiu da sala com o pai.

No corredor, colegas vieram abraçá-la.

Alguém tirou uma foto.

Professora Lúcia colocou um braço em seus ombros e disse que conversariam com calma no dia seguinte.

Helena acreditou que a pior parte terminara.

Então o telefone de Antônio tocou.

Ele atendeu.

— Sim.

Ficou em silêncio.

— Tem certeza?

Helena observou o rosto do pai mudar.

Quando ele desligou, parecia preocupado.

— O que aconteceu?

Antônio hesitou.

— O agente que está verificando as informações das transferências encontrou uma inconsistência.

— Que inconsistência?

— A conta para onde Renato mandou seu dinheiro não pertence apenas à mãe dele.

Helena sentiu um frio no peito.

— Quem é a outra pessoa?

Antônio a encarou.

— Uma mulher chamada Patrícia Lemos.

O nome atingiu Helena como um golpe.

Patrícia trabalhava com Renato.

Ele falava dela havia anos.

Colega de equipe.

Amiga.

A pessoa que ligava tarde porque tinha problemas com clientes.

A mulher que, segundo Renato, “era praticamente irmã”.

Helena se virou.

No fim do corredor, Renato e Márcia acabavam de sair da sala.

Renato percebeu seu olhar.

Parou imediatamente.

Helena caminhou até ele.

— Quem é titular da conta junto com sua mãe?

Renato empalideceu.

Márcia falou depressa:

— Isso não importa.

— Patrícia — Helena disse.

A reação de Renato foi suficiente.

Ele fechou os olhos por um segundo.

Helena sentiu todas as peças se encaixarem ao mesmo tempo.

As viagens de trabalho.

As mensagens apagadas.

A irritação sempre que ela perguntava sobre despesas.

O desejo repentino de que ela recusasse oportunidades em outras cidades.

—

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