mochila.
Esperou até ouvir Márcia e Renato discutindo na cozinha e abriu a porta.
Renato apareceu no corredor.
— Aonde você vai?
— Sair daqui.
— Não seja dramática.
Helena continuou andando.
— Helena.
Ela entrou no elevador.
— Você não vai aparecer na universidade desse jeito!
As portas se fecharam.
Ela passou a madrugada em um hotel simples a quinze minutos do campus.
Dormiu pouco.
Antes do amanhecer, pediu uma tesoura pequena na recepção e tentou consertar o estrago.
O resultado ainda estava torto, mas menos agressivo.
Às sete da manhã, vestiu um terno azul-marinho, passou um pouco de maquiagem sob os olhos e encarou o próprio reflexo.
Não parecia a versão de si mesma que imaginara para aquele dia.
Mas parecia alguém que tinha chegado.
Quando entrou no prédio da pós-graduação, sua orientadora, professora Lúcia Salles, quase deixou cair a pasta que carregava.
— Helena.
— Bom dia.
— O que aconteceu com seu cabelo?
Helena demorou um segundo.
— Uma situação em casa.
Lúcia estreitou os olhos.
— Você está segura?
A pergunta atingiu Helena com mais força do que esperava.
— Agora estou.
— Quer remarcar a defesa?
Helena olhou para a porta da sala.
— Não.
— Tem certeza?
— Se eu não entrar, eles conseguem o que queriam.
Lúcia não perguntou quem eram “eles”.
Apenas assentiu.
— Então vamos terminar isso.
A sala estava quase cheia.
Havia três professores na banca, colegas do programa, dois alunos de graduação e alguns amigos.
Helena conectou o computador e respirou fundo.
Então olhou para o fundo da sala.
Seu pai estava sentado na última fileira.
Antônio morava a quase quinhentos quilômetros dali.
Helena arregalou os olhos.
Ele sorriu.
Depois percebeu o cabelo da filha.
O sorriso desapareceu lentamente.
Helena fez um pequeno gesto com a cabeça, pedindo silenciosamente que ele não falasse.
Antônio ficou imóvel.
A defesa começou.
Nos primeiros dez minutos, Helena ouviu a própria voz como se viesse de outra pessoa.
Depois, a pesquisa assumiu o controle.
Ela explicou hipóteses, métodos, cruzamentos de dados e entrevistas.
Respondeu a uma pergunta dura sobre amostragem.
Defendeu uma escolha estatística.
Admitiu uma limitação e mostrou como havia tratado o problema.
Uma hora virou duas.
A cada resposta, o medo da madrugada parecia ficar mais distante.
Quando terminou, a presidente da banca agradeceu e pediu alguns minutos para deliberação.
Helena desligou a projeção.
Seu pai se aproximou.
— Filha.
Ela o abraçou.
Antônio tocou com cuidado uma das mechas irregulares.
— Foi ele?
Helena não conseguiu responder.
O silêncio respondeu por ela.
A porta abriu antes que Antônio dissesse mais alguma coisa.
Renato entrou.
Márcia veio logo atrás.
Helena sentiu o corpo inteiro ficar alerta.
Renato se aproximou com uma expressão cuidadosamente neutra.
— Helena, precisamos conversar lá fora.
— Não.
— Não faça cena.
Antônio se levantou.
— A única pessoa que vai evitar uma cena aqui é você.
Renato parou.
— Seu Antônio, isso não diz respeito ao senhor.
Antônio abriu o paletó e retirou um envelope pardo.
— Eu acho que diz.
Márcia cruzou os braços.
— O que é isso agora?
Antônio olhou para Helena.
— Depois da mensagem que você me mandou, eu saí de casa às três da manhã.
Quando cheguei à cidade, fui primeiro ao seu prédio.
Helena franziu a testa.
—