dia, entrou em sala com uma pasta cheia de anotações.
Um aluno da primeira fileira levantou a mão.
— Professora, como devemos chamar a senhora?
Helena quase respondeu automaticamente “Helena”.
Então se lembrou daquela sala, dos aplausos e da voz da presidente da banca.
Sorriu.
— Doutora Helena está ótimo.
Ao final da aula, encontrou uma mensagem do pai.
Era uma foto antiga de sua mãe sentada à mesa da cozinha, segurando uma caneca e rindo para a câmera.
Embaixo, Antônio escreveu: “Ela teria colocado a faixa na frente da universidade mesmo.”
Helena ficou alguns segundos olhando para a foto.
Depois guardou o telefone.
Naquela tarde, caminhou pelo campus enquanto o sol atravessava as árvores e deixava o chão coberto de sombras compridas.
Durante anos, ela acreditara que concluir o doutorado seria o momento mais difícil de sua vida.
Estava errada.
O mais difícil fora entender que algumas pessoas não celebram seu crescimento.
Elas o toleram enquanto acreditam que ainda podem controlá-lo.
A defesa lhe dera um título.
Aquela noite, porém, havia lhe dado outra coisa.
A certeza de que não precisava pedir permissão para ocupar nenhum lugar pelo qual tivesse lutado.
Antes de atravessar a rua, Helena viu seu reflexo numa janela.
Cabelo curto.
Pasta de professora debaixo do braço.
Passos firmes.
Ela pensou na mulher que havia sentado no chão do banheiro semanas antes, olhando fios de cabelo espalhados ao redor e acreditando, por alguns minutos, que tudo tinha sido destruído.
Nada essencial havia sido destruído.
O que tinha caído naquela cozinha não era apenas cabelo.
Era a última ilusão que ainda a mantinha presa àquele casamento.
Helena sorriu para o próprio reflexo e seguiu caminhando.