vinha algo mais doloroso: compreensão.
Ele havia confiado neles.
Helena começou a falar sem perceber quanto estava revelando.
— Foi você quem disse que precisava mover as ações antes que Laura descobrisse!
Caio avançou.
— Cala a boca.
— Foi você quem trouxe aquele tabelião!
— Helena!
— E foi você quem disse que o médico nunca verificaria as doses!
Marina deixou o celular sobre a mesa, registrando a conversa.
Caio percebeu e se calou.
Tarde demais.
Augusto baixou o rosto.
Laura se sentou ao lado dele.
— Pai.
Ele segurou a mão dela.
— Eu fui um idiota.
— Você estava ferido.
— Eu confiei neles.
Laura não tentou apagar a dor com frases fáceis.
— Sim.
E eles usaram isso.
Augusto ficou alguns segundos em silêncio.
Então olhou para o relógio que Helena deixara cair sobre a mesa.
— Me dê isso.
Laura pegou a peça.
— Seu relógio?
— Abra a tampa traseira.
Caio imediatamente ergueu a cabeça.
A reação não passou despercebida.
Laura virou o relógio.
Havia uma pequena abertura junto à borda.
Pressionou com a unha e a tampa cedeu.
Dentro, presa com uma fita muito fina, havia uma chave minúscula.
Helena franziu a testa.
— O que é isso?
Augusto olhou para Caio.
— Algo que ele procurou durante semanas.
Caio correu em direção à porta.
Marina se afastou, mas o segurança do condomínio, chamado minutos antes diante da possibilidade de conflito, já estava no hall.
Caio parou ao perceber que não conseguiria sair sem chamar ainda mais atenção.
— A chave abre o quê? — perguntou Laura.
Augusto respirou fundo.
— Um cofre no depósito antigo da empresa.
Helena deu um passo à frente.
— Que cofre?
— O que você nunca encontrou.
Laura observou o pai.
— O que tem dentro?
Ele hesitou.
— Antes do acidente, comecei a perceber pequenos desvios.
Achei que fossem erros contábeis.
Depois encontrei pagamentos ligados a uma empresa que eu não reconhecia.
Caio ficou parado próximo à porta.
— Você não sabe do que está falando.
Augusto continuou:
— Marquei uma reunião com o diretor financeiro.
No caminho, meu carro perdeu o controle.
Laura sentiu um frio no estômago.
O acidente havia sido tratado como falha mecânica seguida de chuva forte.
— Pai, você acha que mexeram no carro?
— Eu não sabia.
Por isso não acusei ninguém.
Ele apontou para a chave.
— Mas antes de sair naquele dia, guardei cópias dos pagamentos, mensagens impressas e um relatório interno no cofre.
Não contei a ninguém onde estava.
Caio finalmente perdeu a calma.
— Isso é absurdo.
Augusto olhou para ele.
— Então por que você passou três semanas procurando meu relógio?
O silêncio foi absoluto.
Helena virou-se para o filho.
— Você sabia da chave?
Caio não respondeu.
— Caio?
— Eu sabia que Augusto escondia coisas.
— Você sabia desse cofre?
Ele apertou os dentes.
Laura percebeu que havia chegado ao ponto mais perigoso da noite.
Não havia prova, naquele momento, de que o acidente fora provocado.
Havia apenas suspeitas, registros financeiros e um cofre ainda fechado.
Ela não permitiria que a raiva transformasse hipótese em acusação.
— Ninguém vai concluir nada antes de verificar o conteúdo — disse.
Marina concordou.
— E o ideal é que isso seja feito com preservação formal dos