duas desapareceram pelo corredor, minha avó caminhou até a cabeceira.
Meu pai tentou oferecer a cadeira.
— Não precisa, Otávio.
Hoje prefiro ficar de pé.
Antônio colocou uma certidão sobre a mesa.
— Senhor Otávio, represento dona Leonor.
Ela solicitou que esclarecêssemos formalmente algumas informações.
— No Natal? — perguntou Rebeca.
Minha avó respondeu antes dele.
— Foi seu pai quem decidiu transformar esta noite em uma cobrança.
O advogado continuou:
— A propriedade onde estamos pertence exclusivamente a dona Leonor.
Não houve doação, transferência ou qualquer alteração de titularidade em favor de Otávio.
Minha mãe ficou vermelha.
— Mas esta sempre foi a casa dele!
— Foi a casa onde ele cresceu — corrigiu Leonor.
— E onde permiti que morasse depois de adulto.
São coisas diferentes.
Meu pai soltou uma risada nervosa.
— Isso é ridículo.
A senhora sabe quanto investi nesta propriedade?
— E você sabe quanto deixou de pagar para morar aqui durante todos esses anos? — perguntou minha avó.
Ninguém respondeu.
Antônio abriu o segundo documento.
— Em relação à Vale Norte Logística, o contrato societário atualizado confirma que dona Leonor detém 62% das participações com direito a voto.
Otávio possui 23% e Rebeca, 15%.
Meu pai apertou a borda da mesa.
— Minha mãe sempre me deixou administrar a empresa.
— Administrar — repetiu Leonor.
— Não significa ser dono.
Aquela foi a primeira vez que vi meu pai realmente assustado.
Ele sempre falara da transportadora como se tivesse construído cada caminhão com as próprias mãos.
Mas meu avô e minha avó haviam financiado o negócio original.
E Leonor nunca abrira mão da participação majoritária.
Preferira permanecer afastada das operações por confiar no filho.
Essa confiança terminara.
Antônio apresentou o relatório preliminar da auditoria.
— Foram identificadas dívidas próximas de 910 mil dólares, além de operações que exigem justificativas e possíveis irregularidades documentais.
A sócia majoritária determinou a convocação de uma reunião extraordinária, respeitados os procedimentos previstos no contrato, para decidir sobre a permanência do senhor Otávio na administração.
Meu pai bateu na mesa.
— Você está destruindo a empresa!
Leonor não se alterou.
— Não.
Estou tentando impedir que seus funcionários percam o emprego por causa das decisões que você escondeu de todos nós.
Antônio acrescentou que a auditoria continuaria, que os credores seriam tratados conforme os contratos existentes e que nenhuma nova garantia pessoal de Leonor seria oferecida sem avaliação independente.
Nada daquilo apagava automaticamente as dívidas.
Mas significava que meu pai não poderia continuar usando a autoridade da mãe como se fosse um cheque sem limites.
Leonor apontou para minha bolsa.
— Helena, pode abrir o envelope.
Minhas mãos ficaram frias.
Rompi a cera vermelha e retirei os papéis.
Havia uma carta escrita pela minha avó, cópias de mensagens fornecidas por familiares e partes de um conjunto de documentos que Antônio havia examinado.
Uma das mensagens mostrava Rebeca discutindo com Otávio estratégias para convencer-me a disponibilizar os recursos do seguro de Davi.
Outra sugeria que minha recusa poderia ser apresentada aos parentes como prova de instabilidade emocional.
Na terceira, minha irmã falava da necessidade de criar preocupação suficiente para justificar uma intervenção na minha vida financeira.
Li tudo em silêncio.
Então encontrei a segunda parte da documentação.
Era uma minuta de pedido de guarda provisória de Bia.
Meu estômago se contraiu.