primeira página, o documento parecia tratar de uma participação societária em um grupo de investimentos familiares.
Mas havia anexos mencionando autorização para movimentações financeiras e vinculação de recursos pessoais a obrigações da empresa.
Reconheci imediatamente o tipo de instrumento sobre o qual Antônio havia me alertado.
— Meu advogado vai analisar isso — falei.
Rebeca suspirou teatralmente.
— Você precisa parar de tratar todo mundo como criminoso.
Meu pai apoiou o copo na mesa.
— Helena, estamos tentando salvar um negócio construído por gerações.
— Então apresentem os dados financeiros de maneira transparente.
Ele me encarou.
— Você tem quase dois milhões de dólares porque seu marido morreu.
Sua irmã e eu trabalhamos a vida inteira para manter esta empresa funcionando.
A mesa ficou silenciosa.
Senti as palavras atingirem um lugar que eu ainda tentava reconstruir.
Bia baixou os olhos.
— Vovô, não fala assim do papai — murmurou.
Otávio sequer olhou para ela.
— Os adultos estão conversando.
Foi o momento em que deixei de me preocupar com o que os outros pensariam.
— Bia não merece ouvir isso.
E eu não vou assinar esses documentos.
Minha mãe inclinou o corpo para a frente.
— Você está destruindo esta família com sua arrogância.
— Não.
Estou recusando uma proposta financeira.
— Seu marido saberia agir com responsabilidade — acrescentou.
Olhei diretamente para Marta.
— Não fale em nome de Davi.
E nunca mais diga à minha filha que preferia que eu tivesse morrido.
Isabel levantou o rosto imediatamente.
Rebeca ficou rígida.
Minha mãe abriu a boca, mas demorou alguns segundos para responder.
— Crianças entendem tudo errado.
— Bia repetiu exatamente suas palavras.
Meu pai se levantou.
— Chega.
Você não vai entrar na minha casa e acusar sua mãe dessa maneira.
Também me levantei.
— Então vamos embora.
Rebeca sorriu.
— Ótimo.
E faça um favor: nunca mais volte.
Minha mãe ajeitou o colar de pérolas.
— O Natal será muito melhor sem vocês.
Eu poderia ter respondido dezenas de coisas.
Poderia ter lembrado quantas vezes cuidei de Rebeca quando éramos crianças, quantos aniversários organizei e quantas desculpas aceitei para manter a paz.
Mas nada disso importaria.
Bia pegou minha mão.
Sua outra mão segurava o guardanapo dobrado.
— Mamãe, a gente fez alguma coisa errada?
Ajoelhei diante dela.
— Não, meu amor.
Você não fez nada errado.
Meu pai apontou para o corredor.
— Fora da minha casa.
Agora.
Levantei e olhei para ele.
— Vocês não estão me tirando de uma família.
Estão me mostrando que nunca souberam ser uma.
Depois peguei meu celular.
Disquei o número de Antônio.
Ele atendeu na primeira chamada.
— Helena?
— Pode entrar agora.
A maçaneta da porta do escritório começou a girar.
O primeiro a surgir foi Antônio, carregando uma pasta de couro.
Atrás dele vinha minha avó Leonor, apoiada na bengala.
Meu pai ficou imóvel.
— Mãe? O que está acontecendo?
Leonor olhou para mim e depois para Bia.
— Minha querida, Isabel pode levar nossa pequena à biblioteca por alguns minutos?
Isabel se aproximou imediatamente.
— Claro.
Bia hesitou.
— Mamãe vai ficar bem?
Segurei seu rosto delicadamente.
— Vou, sim.
Estarei aqui pertinho.
Minha avó sorriu para ela.
— Deixei biscoitos de canela na mesa.
E papel para desenhar.
Bia finalmente aceitou acompanhar Isabel.
Quando as