da parede.
Ela mantinha os olhos fechados e respirava.
Ajoelhei-me a uma distância segura, sem tentar levantá-la.
— Dona Amália? Está me ouvindo? É a Bianca.
Seus olhos se abriram lentamente.
Ela parecia confusa.
— Bianca?
— Estou aqui.
A ajuda está chegando.
Ela tentou mover o braço.
— Eu…
não consegui alcançar o telefone.
— Não precisa se mexer agora.
Fique tranquila.
Já chamamos uma ambulância.
Mauro trouxe uma manta para deixá-la aquecida, seguindo as orientações recebidas, sem mudar sua posição.
Fiquei ao lado dela, falando calmamente.
— Lembra do que escreveu no caderno?
Ela me olhou.
— Você…
leu?
— Li.
E prometi que não iria embora sem verificar se estava tudo bem.
Uma lágrima escorreu pela lateral de seu rosto.
— Pensei que ninguém fosse ouvir.
Segurei sua mão com delicadeza, sem tentar movimentá-la.
— Nós ouvimos.
A equipe de emergência chegou pouco depois.
Os profissionais a avaliaram, fizeram perguntas e a prepararam cuidadosamente para o transporte ao hospital.
Dona Amália estava consciente, mas apresentava dores e sinais de desidratação.
Seria necessário investigar as causas da queda e verificar se havia alguma lesão.
Antes de ser colocada na ambulância, ela procurou meu rosto.
— Bianca…
minha filha não sabe.
— Vamos avisá-la.
Mauro conhecia o telefone de Teresa e se ofereceu para entrar em contato.
Eu precisava voltar às entregas, mas só fui embora depois de saber para qual hospital dona Amália estava sendo levada e de confirmar que Mauro permaneceria responsável por comunicar a família.
No caminho de volta, chorei dentro da van.
Não de heroísmo.
Nem de orgulho.
Chorei porque percebi como tudo poderia ter sido diferente.
Se eu tivesse simplesmente deixado o pacote na varanda, talvez tivesse seguido viagem sem descobrir que ela estava caída.
A ideia me acompanhou durante o restante do expediente.
À noite, telefonei para seu Mauro.
Ele contou que dona Amália estava estável, sendo observada no hospital, e que os médicos haviam identificado desidratação e uma lesão muscular sem fratura aparente.
Ainda investigariam a tontura que precedera a queda.
— A filha dela está vindo de Joinville — ele acrescentou.
Respirei aliviada.
No sábado, fui ao hospital durante meu horário livre.
Levei um pequeno vaso de flores amarelas.
Dona Amália estava sentada na cama, com os óculos apoiados no nariz e uma manta sobre as pernas.
Ao me ver, sorriu.
— Você veio sem encomenda?
— Trouxe uma coisa melhor.
Mostrei o vaso.
Ela riu.
— Flores! Faz tempo que ninguém me traz flores.
Mas antes que eu pudesse me aproximar, uma mulher entrou no quarto.
Tinha pouco mais de quarenta anos, cabelos castanhos presos num coque e olheiras profundas.
— Você é a Bianca? — perguntou.
Assenti.
— Sou Teresa, filha da Amália.
Ela ficou alguns segundos em silêncio, como se procurasse as palavras certas.
— Meu Mauro me contou o que aconteceu.
Obrigada por não ter ido embora.
— Fiz o que qualquer pessoa deveria fazer.
Teresa abaixou a cabeça.
— Eu sou filha dela.
E nem sabia que minha mãe estava comprando coisas só para alguém vir conversar.
Dona Amália estendeu a mão.
— Teresa, não se culpe.
Eu também escondi muita coisa de você.
A filha sentou-se ao lado da cama.
— Mãe, por que não me contou que estava tão sozinha?
— Porque você tem