expliquei que queria manter contato com dona Amália durante meus intervalos, sem prejudicar as entregas.
Contei, respeitando sua privacidade, que ela havia sofrido uma queda e que o acompanhamento por pessoas próximas poderia ajudá-la.
Marcos ouviu com atenção.
— Bianca, o que você fez ao encontrar uma pessoa precisando de socorro foi correto.
O que precisamos é garantir que ninguém precise escolher entre pedir ajuda e cumprir o trabalho.
Ele sugeriu que eu registrasse situações de emergência imediatamente e que utilizasse os intervalos regulamentares, sem depender de paradas improvisadas.
Não houve aumento de salário nem recompensa extraordinária.
Eu continuava precisando trabalhar muito.
Mas passei a organizar melhor meus dias e a reservar parte do tempo livre para pessoas que realmente importavam.
Três semanas depois, fui visitar dona Amália numa tarde de domingo.
Ela estava na varanda, sentada numa cadeira de madeira, com um lenço florido sobre os ombros.
A mesa onde antes ficavam as encomendas estava quase vazia.
— Dona Amália! — chamei.
Ela levantou a cabeça.
— Minha menina chegou!
Atravessei o portão trazendo pão de queijo e um pequeno pacote de sementes.
— Trouxe umas flores para a senhora plantar.
Ela abriu o pacote imediatamente.
— Zínias! Antônio adorava essas flores.
Sentamos lado a lado.
Depois de alguns minutos, perguntei:
— A senhora ainda está fazendo aquelas comprinhas?
Ela sorriu.
— Não.
Agora compro só o que preciso.
— E não sente falta das entregas?
Ela olhou para a rua.
Do outro lado, duas crianças brincavam enquanto Mauro regava algumas plantas.
— Sinto falta de conversar com você.
Mas agora sei que posso convidá-la para um café sem precisar gastar dinheiro.
Ri.
— Exatamente.
Ela ficou pensativa.
— Sabe, Bianca, eu passei tanto tempo tentando não incomodar ninguém que quase esqueci como era pedir companhia.
— Pedir companhia não é incomodar.
— Estou aprendendo.
Os meses passaram.
Aos poucos, a casa amarela voltou a ter movimento.
Dona Amália retomou pequenos trabalhos de costura, agora apenas por prazer.
Ensinava pontos simples a duas vizinhas e fazia pequenos consertos para os netos.
Seu jardim ganhou flores novas.
Aos domingos, quando Teresa não podia viajar, as chamadas de vídeo reuniam a família em torno da mesa da cozinha.
Nem todos os dias eram felizes.
Havia tardes em que as dores nas pernas aumentavam, em que o tempo fechava e ela sentia saudade do marido.
A ausência de Antônio não desapareceu porque outras pessoas começaram a visitá-la.
Mas a tristeza deixou de ser a única presença naquela casa.
E a solidão já não precisava ser escondida atrás de pequenas compras.
Certo dia, durante uma visita, ela me entregou o antigo caderno azul.
— Quero mostrar uma coisa.
Reconheci as páginas em que havia registrado nossas entregas.
As mesmas frases simples que eu lera naquela quinta-feira chuvosa.
Mas, depois da data do acidente, as anotações haviam mudado.
Segunda-feira: Teresa telefonou.
Conversamos sobre os meninos.
Terça-feira: Célia veio costurar comigo.
Quarta-feira: Mauro trouxe pão fresco.
Quinta-feira: Bianca passou para tomar café.
Sexta-feira: Fui ao jardim e plantei mais flores.
Sábado: Os netos me mostraram seus desenhos pela televisão do celular.
Domingo: Almocei com minha filha.
Na página seguinte, havia uma frase escrita com letras grandes:
Hoje não chegou nenhuma encomenda.
Mas minha casa esteve cheia de vida.
Fechei o caderno com cuidado.
Dona Amália