sala.
Havia uma mesinha encostada na parede.
Sobre ela estavam empilhadas dezenas de embalagens.
Reconheci várias imediatamente.
Tinham as mesmas etiquetas e os mesmos tamanhos dos pacotes que eu entregara nas semanas anteriores.
Mas havia algo estranho.
Nenhum parecia ter sido aberto.
Alguns estavam cobertos por uma camada fina de poeira.
— Dona Amália, posso perguntar uma coisa?
— Claro, minha filha.
— Por que a senhora não abre suas compras?
Ela acompanhou meu olhar.
O sorriso desapareceu lentamente.
Por alguns segundos, pareceu procurar uma explicação que não a deixasse envergonhada.
— Ah, essas coisas…
Não são importantes.
— Mas a senhora compra tantas.
Ela apertou a bengala entre os dedos.
— Eu sei.
Fiquei sem entender.
— Então por que continua comprando?
Dona Amália respirou fundo e olhou para a rua molhada.
— Porque ninguém vem aqui se eu não comprar alguma coisa.
Pensei que tivesse ouvido errado.
— Como assim?
Ela apoiou uma das mãos no batente.
— Meu marido, Antônio, morreu há seis anos.
Minha filha mora em Joinville.
Os netos estão crescendo.
Cada um tem seus compromissos.
Fez uma pausa.
— Depois que Antônio se foi, a casa ficou muito silenciosa.
A chuva batia suavemente no telhado da varanda.
— No começo, minhas amigas ainda vinham tomar café.
Depois uma mudou de cidade, outra ficou doente…
e algumas já não estão mais aqui.
Seus olhos ficaram úmidos.
— Às vezes passo tantos dias sem conversar pessoalmente com alguém que começo a falar sozinha, só para ouvir uma voz.
Senti um desconforto difícil de explicar.
Ela continuou:
— Um dia precisei comprar um pacote de linhas.
Quando você entregou, perguntou como eu estava.
Eu respondi que estava bem.
Foram só alguns segundos, mas naquele dia alguém tinha lembrado que eu existia.
Baixei os olhos para o envelope em minhas mãos.
— Então comecei a comprar outras coisinhas.
Sempre baratas.
Um botão hoje, um pano amanhã.
Não precisava de quase nada, mas sabia que alguém viria.
Minha garganta apertou.
Durante semanas, eu havia pensado naquela mulher como um obstáculo entre mim e a próxima entrega.
Ela, enquanto isso, esperava a chegada da minha van como quem espera uma visita da família.
— Desculpe — murmurei.
— Pelo quê?
— Por sempre estar com tanta pressa.
Dona Amália sorriu tristemente.
— Você não tem obrigação de conversar comigo, Bianca.
Eu sei disso.
Foi quando ela apontou para um caderno azul sobre a mesa.
— Sabe o que faço todas as noites? Anoto as coisas boas que aconteceram durante o dia.
Meu marido dizia que a memória precisava de ajuda para guardar as alegrias.
— Posso ver?
Ela concordou.
Entrei alguns passos e abri o caderno.
As páginas estavam preenchidas com uma caligrafia delicada, ligeiramente trêmula.
Terça-feira: Bianca trouxe um envelope.
Perguntou se eu estava melhor do joelho.
Quarta-feira: O entregador substituto sorriu e me desejou boa tarde.
Sexta-feira: Bianca disse para eu tomar cuidado com a chuva.
Não havia grandes acontecimentos.
Não havia viagens, festas ou presentes caros.
Apenas registros de pequenos encontros que, para mim, tinham sido quase insignificantes.
Virei mais uma página.
E encontrei uma anotação diferente.
A letra estava maior, como se dona Amália quisesse ter certeza de que alguém a leria.
Se eu não abrir a porta, por favor, não vá embora.
Da última vez,