quis acreditar.
Não havia muito o que dizer depois disso.
Às vezes, duas mulheres podem passar anos irritadas uma com a outra sem perceber que estão protegendo versões diferentes do mesmo homem.
— O jantar — eu disse.
— Foi ideia de quem?
Helena baixou os olhos.
— Marcelo.
— E você sabia que ele pretendia deixar a conta comigo?
Ela demorou.
— Ele disse que você sempre gostava de pagar quando saíamos.
— Isso não responde.
— Eu sabia que ele não pretendia pagar.
A verdade veio baixa.
— Você podia ter me avisado.
— Eu sei.
— Você usou Caio.
Ela fechou os olhos.
— Eu sei.
— Você ensinou seu filho a mentir para a própria avó para escapar de uma conta.
Essa foi a frase que a quebrou.
Helena cobriu o rosto.
Eu não a abracei.
Não naquele momento.
— Por quê?
Ela respirou fundo.
— Marcelo disse que nossos cartões estavam no limite e que seria constrangedor pedir ajuda outra vez.
Disse que você podia pagar sem sentir.
— E isso fez parecer certo?
— Não.
— Então por que fez?
Helena olhou para mim com os olhos vermelhos.
— Porque eu passei anos fingindo que ele ainda tinha controle de tudo.
Acho que, se eu admitisse que não tinha, teria que admitir muitas outras coisas também.
Naquele momento, meu telefone tocou.
Eduardo.
Atendi no viva-voz.
— Tenho uma atualização — ele disse.
— A Vértice comprou um apartamento em Balneário Camboriú em maio.
Helena ficou imóvel.
— E?
— O imóvel foi registrado em nome da empresa.
Mas há uma autorização de uso permanente assinada por Renata.
Helena parou de respirar por um instante.
— Marcelo comprou um apartamento para ela?
— Não posso afirmar isso ainda — Eduardo respondeu.
— Mas há mais.
Parte do dinheiro veio diretamente do escritório.
Helena se levantou.
— Eu quero ver tudo.
— Posso enviar.
Depois da ligação, ela ficou andando pela sala.
— Ele disse que não tínhamos dinheiro para pagar o banco.
Disse que os clientes atrasaram.
— Talvez parte seja verdade.
— Mãe, ele desviou dinheiro.
— É o que parece.
— E eu deixei você pagar um jantar de quase seis mil reais porque ele disse que estávamos quebrados.
Eu a encarei.
— Não transforme uma coisa na desculpa da outra.
Marcelo pode ter mentido para você.
Você ainda escolheu mentir para mim.
Ela assentiu.
Doía dizer aquilo.
Mas eu havia passado anos confundindo amor com proteção contra consequências.
Não faria mais isso.
À tarde, Helena confrontou Marcelo no escritório com Eduardo presente.
Eu também fui.
Marcelo estava numa sala de reunião de paredes de vidro, com o paletó jogado sobre uma cadeira.
Quando nos viu entrando, ficou de pé.
— Isso virou tribunal agora?
Helena colocou os extratos sobre a mesa.
— O que é Vértice Consultoria?
Marcelo olhou para Eduardo.
— Vocês não tinham direito de invadir minhas contas pessoais.
— Não são suas contas pessoais — Helena respondeu.
— É dinheiro da empresa.
— Houve um investimento.
— Em um apartamento usado pela Renata?
Foi a primeira vez que ele perdeu o controle do rosto.
Só por um segundo.
Depois recuperou.
— Ela representa investidores.
— Então mostre o contrato.
— Não está aqui.
— Mostre qualquer contrato.
Marcelo abriu