morrer.
Antes de eu aprender que a solidão, por pior que seja, tem uma vantagem inesperada: depois que você perde a pessoa com quem dividiu quase toda a vida, algumas formas menores de rejeição deixam de parecer tão assustadoras.
Fechei a pasta.
— Rafael, preciso que separe apenas o que eu consumi.
Ele pareceu aliviado.
— Claro.
O gerente veio até a mesa.
Expliquei que cada adulto havia feito seus próprios pedidos e que eu pagaria minha refeição.
Ninguém discutiu.
O restaurante tinha câmeras, comandas eletrônicas e garçons que sabiam quem pedira o quê.
Minha conta ficou em R$ 246.
Paguei.
Deixei uma boa gorjeta.
Então pedi café preto.
Antes que retirassem a conta original, fotografei tudo.
A lista de itens.
O total.
O horário.
Depois fotografei meu próprio recibo.
Não pensei em vingança.
Pensei em documentação.
Era outro hábito que Augusto me deixara.
— Quando alguém quiser transformar uma história, Lídia, guarde o papel antes que comece a discussão.
Peguei o celular e encontrei Eduardo.
Ele atendeu no quarto toque.
— Lídia? Está tudo bem?
— Preciso que localize o contrato do empréstimo da Helena.
— Agora?
— Agora.
Ouvi o barulho de uma cadeira.
— Aconteceu alguma coisa?
— Quero saber se a cláusula de sub-rogação continua válida.
Houve uma pausa.
— Continua.
— E quero saber a situação da dívida.
— Lídia…
— Por favor.
Enquanto ele acessava os arquivos, Rafael voltou com meu café e colocou o boné de Caio sobre a mesa.
— Encontramos isto embaixo da cadeira.
— Obrigada.
Eduardo voltou à linha.
— Eles estão atrasados.
Meu café parou a centímetros da boca.
— Quanto?
— Três parcelas.
— Helena sabe?
— Não tenho como saber.
As notificações estão indo para o endereço comercial e para os e-mails cadastrados.
— Qual é o próximo passo do banco?
— A notificação final está programada para amanhã.
Depois disso, podem executar as garantias.
— E se eu quitar?
Ele demorou alguns segundos.
— Podemos solicitar a transferência dos direitos do credor para você.
Augusto fez questão de deixar isso muito claro no contrato.
Eu conhecia as garantias vinculadas.
A sala comercial do escritório.
Parte dos recebíveis.
A participação societária de Helena como garantia complementar.
Fechei os olhos por um instante.
Não queria destruir minha filha.
Mas também não estava disposta a continuar sendo a rede de segurança de pessoas que saltavam de propósito porque sabiam que eu estaria embaixo.
— Prepare os documentos — disse.
— Tem certeza?
Olhei a conta abandonada.
— Tenho.
Naquela noite, dormi melhor do que esperava.
Às 7h30 da manhã seguinte, Eduardo me ligou.
— Antes de fazermos qualquer coisa, preciso contar algo.
— O quê?
— Há movimentações estranhas na empresa.
Sentei na cama.
— Estranhas como?
— Duas parcelas que deveriam ter sido pagas ao banco parecem ter sido desviadas para uma conta particular.
Estou confirmando.
— De Helena?
— Ainda não sei.
Às 8h05, Eduardo quitou o valor necessário para interromper a execução imediata, utilizando recursos meus previamente autorizados.
Em seguida, iniciou a formalização da cessão dos direitos previstos no contrato.
Às 8h17, Helena ligou.
— Mãe, o que você fez?
Não havia bom-dia.
Não havia desculpa pelo restaurante.
— Bom dia, Helena.
— O banco mandou uma comunicação dizendo que a dívida foi liquidada por um