Quatro dias depois de meu pai me dar um tapa porque eu me recusara a vender meu apartamento, o banco ligou para perguntar se eu realmente queria colocá-lo como garantia de um empréstimo de duzentos e oitenta mil reais.
Eu estava descalça na cozinha quando recebi a ligação.
A cafeteira ainda chiava atrás de mim, e a luz das sete da manhã atravessava as persianas do apartamento que eu tinha comprado havia menos de duas semanas.
— Senhora Marina Duarte? — perguntou a mulher do outro lado.
— Precisamos confirmar uma solicitação de crédito vinculada ao seu CPF e ao imóvel da Rua das Palmeiras.
Meu corpo ficou imóvel.
— Que solicitação?
— Um crédito com garantia imobiliária.
— Eu não pedi nenhum crédito.
A atendente fez uma pausa curta.
Quando voltou a falar, sua voz estava mais cuidadosa.
— Nesse caso, precisamos interromper o processo imediatamente.
Ouvi teclas sendo pressionadas.
— O valor solicitado é de duzentos e oitenta mil reais.
Foram anexados documentos pessoais, comprovantes e uma assinatura atribuída à senhora.
Segurei a bancada.
— Quem enviou isso?
Ela explicou que não poderia afirmar quem havia realizado o procedimento até a investigação interna, mas poderia confirmar um dado cadastrado no formulário.
O contato secundário informado era Roberto Duarte.
Meu pai.
Olhei para a pequena chave prateada sobre a bancada.
Era a mesma chave que, onze dias antes, eu tinha segurado na mão enquanto estava sentada no chão vazio da sala, chorando de orgulho.
Eu tinha vinte e nove anos.
Durante seis deles, economizara quase tudo que podia.
Trabalhava como fisioterapeuta em uma clínica de reabilitação em São Paulo.
Minha agenda começava cedo e, em três noites por semana, terminava depois das oito.
Pegava pacientes extras, atendimentos domiciliares e plantões de sábado sempre que surgiam.
Não vivia miseravelmente.
Mas vivia calculando.
Eu sabia exatamente quanto custava pedir comida duas vezes por semana em vez de cozinhar.
Sabia quanto uma viagem de feriado atrasaria minha entrada.
Sabia quanto conseguiria guardar se usasse o mesmo celular por mais um ano.
Meus colegas brincavam que eu tinha uma planilha para respirar.
Talvez tivessem razão.
O que eles não sabiam era por que eu precisava tanto daquele apartamento.
Na casa dos meus pais, tudo vinha com uma condição invisível.
Meu pai, Roberto, dirigia uma distribuidora de materiais para restaurantes.
Ele era trabalhador, disciplinado e, diante de outras pessoas, extremamente generoso.
Pagava almoços para funcionários, ajudava parentes com contatos e gostava de ser visto como o homem que resolvia problemas.
Dentro de casa, porém, ajuda e controle frequentemente significavam a mesma coisa.
Minha mãe, Teresa, raramente confrontava alguém.
Ela preferia suavizar frases duras.
Quando meu pai dizia que eu deveria entregar parte de um bônus para ajudar minha irmã, minha mãe dizia:
— Ele só quer que vocês sejam unidas.
Quando meu pai reclamava que eu gastara dinheiro com um curso profissional em vez de ajudar em uma despesa familiar, ela dizia:
— Ele está preocupado com todo mundo.
Minha irmã, Camila, era três anos mais nova.
Eu a amava.
Esse era o ponto complicado.
Ela não era uma vilã mimada que exigia tudo.
Durante muitos anos, apenas crescera dentro de um sistema em que eu era considerada a pessoa forte e ela, a pessoa que precisava ser protegida.
Quando Camila entrou na faculdade