nasceu o plano de comparecer à apresentação do colar.
Sofia solicitou uma reunião urgente com Artur Mendonça, presidente do conselho, que recebeu uma cópia do contrato e concordou em examinar o problema antes do início dos lances.
Elisa pediu que ele aguardasse do lado de fora até que ela confirmasse a intenção da diretoria comercial de continuar com a venda.
Queria compreender se tudo não passava de um erro administrativo ou se alguém estava conscientemente ignorando sua propriedade.
Na sexta-feira, uma chuva intensa atingiu São Paulo.
Elisa colocou o mesmo casaco que usava havia quase vinte anos.
Marina insistiu para que ela vestisse alguma coisa mais elegante.
A avó recusou.
— Não tenho que comprar uma roupa nova para provar que uma coisa minha é minha.
Antes de sair, passou a mão pela costura na alça da bolsa.
Clara havia feito aquele reparo quando ainda era estudante.
Elisa decidiu levá-la.
Foi assim que chegou ao Hotel Harmonia.
Foi assim que Marcelo Bastos a encontrou diante da vitrine.
E foi assim que ele cometeu o erro de confundir uma mulher de roupas simples com alguém sem direitos.
Agora, no saguão, Marcelo observava Artur, Marina e Sofia com crescente inquietação.
— Deve haver algum engano — declarou.
— Temos toda a documentação de cessão.
Sofia abriu seu porta-documentos.
— Então será simples esclarecer.
Ela apresentou a cópia autenticada do contrato original de 2021.
Artur leu a cláusula que proibia expressamente a venda e o uso do colar como garantia.
— Onde está a autorização posterior? — perguntou.
Marcelo hesitou.
— Foi assinada digitalmente em 2024.
— Mostre — respondeu Elisa.
Um funcionário buscou o arquivo no sistema interno.
Quando o documento apareceu, Sofia pediu que fosse exibido com as informações de autenticação.
Havia um nome, uma data e um número de telefone usado para validar a suposta assinatura.
Elisa observou os dígitos finais.
— Esse telefone nunca foi meu.
Marcelo cruzou os braços.
— A senhora pode ter esquecido.
Estamos falando de uma operação antiga.
Marina se aproximou.
— Minha avó tem o mesmo número há quinze anos.
Eu conferi os registros dela.
Além disso, o número que aparece nesse documento também foi usado no cadastro de um fornecedor vinculado à Casa Mirante.
Artur ergueu os olhos.
— Você tem como demonstrar essa ligação?
— Tenho a correspondência e os registros de cadastro que conseguimos localizar.
Mas será necessária uma verificação independente para identificar quem controlava a linha na data da assinatura.
Sofia assentiu.
— Exatamente.
É por isso que a venda precisa ser interrompida até que a autenticidade da cessão seja apurada.
Artur voltou-se para Marcelo.
— Suspenda o lote.
O diretor empalideceu.
— Não podemos fazer isso!
— Por quê?
— Existem compradores internacionais envolvidos.
A operação já está comprometida!
Sofia percebeu imediatamente a escolha de palavras.
— Comprometida? O leilão ainda não começou.
Marcelo tentou corrigir a frase.
— Refiro-me aos compromissos comerciais assumidos com os interessados.
Elisa aproximou-se da vitrine.
— Minha filha trabalhou quase um ano naquele colar.
Ela desenhou cada curva.
Meu marido construiu o fecho.
Eu coloquei as pedras com minhas próprias mãos.
Apontou para uma pequena marca atrás da safira.
— Aquela curvatura não é um defeito.
Clara pediu que fosse assim porque gostava de saber que até as partes escondidas tinham sido feitas