Ela comprava objetos baratos todos os dias para não desaparecer sozinha

Aos 28 anos, eu achava que o pior do meu trabalho eram os atrasos, o trânsito e as pessoas que nunca estavam em casa para receber suas encomendas.

Até conhecer uma senhora que gastava parte da aposentadoria comprando coisas de que não precisava.

Durante semanas, pensei que ela estivesse desperdiçando meu tempo.

Depois descobri que aquelas pequenas compras escondiam um medo tão profundo que mudaria para sempre a maneira como eu enxergava as pessoas.

Meu nome é Bianca.

Sou entregadora em Curitiba e, naquela época, trabalhava seis dias por semana para uma empresa de logística.

Meu salário mal cobria o aluguel, as prestações da moto que eu havia vendido para comprar um carro usado e as parcelas de um empréstimo feito quando minha mãe precisou de uma cirurgia.

Eu vivia cansada.

Cansada de dirigir, de correr, de ouvir reclamações e de sentir que, por mais rápido que trabalhasse, nunca seria suficiente.

Meu supervisor, Marcos, acompanhava nossas entregas por um sistema de rastreamento.

Cada parada acima do tempo previsto aparecia nos relatórios.

— Bianca, você precisa melhorar sua produtividade — ele repetia quase diariamente.

Eu tentava.

Mas existia um endereço que parecia decidido a acabar com minhas metas.

Número 427, numa pequena rua residencial de Curitiba.

Uma casa amarela, com grades brancas, vasos de flores antigas na varanda e uma campainha que tocava mais alto do que deveria.

Ali morava dona Amália, uma viúva de 84 anos.

Durante dois meses, entreguei dezenas de pacotes naquela residência.

Às vezes eram dois na mesma semana.

Outras vezes, chegava um envelope todos os dias.

Eram objetos minúsculos: botões, elásticos, colheres, pequenos utensílios de cozinha, pedaços de fita, panos de limpeza e prendedores.

O valor de algumas compras mal chegava a cinco reais.

No começo, achei engraçado.

Depois, irritante.

Principalmente porque dona Amália sempre fazia questão de abrir a porta pessoalmente.

Ela caminhava devagar, apoiando o peso do corpo numa bengala de madeira.

Quando finalmente aparecia, oferecia água, café ou perguntava sobre meu dia.

Eu respondia apressadamente.

— Está tudo bem, dona Amália.

Preciso continuar trabalhando.

— Claro, minha filha.

Não vou atrapalhar.

Mesmo assim, na entrega seguinte, ela repetia o convite.

Até que chegou uma quinta-feira de julho.

A chuva havia começado antes das sete da manhã.

As ruas estavam congestionadas, vários clientes não atendiam ao telefone e eu acumulava quase quarenta minutos de atraso.

Quando o aplicativo mostrou novamente o número 427, bati a mão no volante.

— Não é possível.

Mais uma encomenda!

Estacionei diante do portão, peguei um pequeno envelope acolchoado e caminhei apressadamente até a varanda.

Toquei a campainha.

Esperei.

Toquei outra vez.

Finalmente ouvi passos lentos atrás da porta.

Dona Amália apareceu vestindo um casaquinho lilás sobre uma blusa florida.

Os cabelos brancos estavam presos cuidadosamente, e havia um pouco de batom rosado em seus lábios.

Parecia alguém que havia se preparado para receber uma visita importante.

— Bianca! Que bom que você veio!

Ela sorriu com uma alegria que, naquele momento, não consegui compreender.

— Preparei café.

Acabei de passar.

Você aceita uma xícara?

Olhei para o relógio.

— Hoje não posso, dona Amália.

Estou muito atrasada.

Ela assentiu.

— Eu entendo.

Você trabalha muito.

Estendi o envelope.

Foi então que uma corrente de ar empurrou a porta um pouco mais para dentro, permitindo que eu enxergasse a

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