queria pedir desculpas por ter aparecido na sua porta daquele jeito.
Nunca teria aceitado aquela proposta se soubesse que a senhora não tinha concordado.
Agradeci.
Ela me contou que ela e Álvaro estavam procurando um apartamento menor para viver depois do término do contrato de locação do imóvel anterior.
A situação era desconfortável, mas estavam encontrando uma saída real, baseada no que podiam pagar.
Nossa conversa terminou cordialmente.
Com Rafael, as coisas foram mais lentas.
Durante quase dois meses, ele enviou mensagens perguntando se eu estava bem.
Algumas eram simples.
Outras continham desculpas que eu já havia ouvido antes.
Eu respondia quando queria.
Não o excluí da minha vida.
Mas também não fingia que a confiança poderia voltar apenas porque ele estava arrependido.
Numa tarde de março, ele me convidou para tomar café numa padaria perto do trabalho dele.
Aceitei.
Quando cheguei, Rafael estava esperando do lado de fora.
Não havia reservado uma mesa sem me perguntar, nem escolhido o que eu comeria.
Apenas sorriu, nervoso, e abriu a porta.
Sentamos perto da janela.
— Mãe, comecei a fazer terapia — contou depois de alguns minutos.
— Estou tentando entender por que sempre fujo de qualquer discussão, mesmo quando isso significa machucar outra pessoa.
Não respondi imediatamente.
— Espero que faça isso por você, Rafael.
Não para me convencer de que tudo voltou ao normal.
Ele assentiu.
— Eu sei.
E queria dizer que, quando assinei aquele papel, estava com medo de desagradar a Luísa.
Mas foi uma escolha minha.
Não posso continuar dizendo que só fiz aquilo porque ela pediu.
Aquelas foram as primeiras palavras de verdadeira responsabilidade que ouvi dele desde o Natal.
Não apaguei o passado naquela tarde.
Mas aceitei tomar outro café com ele na semana seguinte.
O tempo passou.
Rafael e Luísa precisaram enfrentar consequências que não podiam transferir para mim.
O relacionamento deles atravessou dificuldades, e eu deixei de assumir a função de mediadora de cada conflito.
Minha casa continuou minha.
Troquei as fechaduras definitivamente, atualizei os contatos de emergência e estabeleci uma regra simples: visitas precisavam ser combinadas e aceitas por mim.
Alguns parentes acharam excessivo.
Outros disseram que eu deveria perdoar tudo porque a vida era curta.
Mas perdoar não exigia entregar novamente as chaves.
Na primavera, comecei a reformar o pequeno quarto que antes era tratado como propriedade de Rafael e Luísa.
Tirei os móveis que ninguém usava, pintei as paredes de um verde suave e coloquei uma escrivaninha perto da janela.
Transformei o espaço num quarto de leitura e costura.
Ali organizei minhas fotografias antigas, a caixa de cartões-postais de Augusto e o caderno que havia comprado em Lisboa.
Também comecei a planejar outra viagem.
Dessa vez, não seria uma fuga de um Natal imposto por outras pessoas.
Seria simplesmente uma viagem porque eu tinha vontade de conhecer novos lugares.
Quando dezembro chegou novamente, Rafael me telefonou duas semanas antes das festas.
— Mãe, posso fazer uma pergunta?
Sorri discretamente.
— Pode.
— Você gostaria que eu passasse aí na manhã de Natal? Só para tomar café.
Sem convidados, sem planos, sem surpresa.
Se preferir ficar sozinha, eu entendo.
Fiquei olhando para a macieira pela janela.
Aquela pergunta simples era mais importante do que qualquer presente.
— Pode vir às dez — respondi.
— Mas eu vou fazer somente café