Voltei do Funeral e Encontrei a Família Dele Roubando Tudo

Voltei do enterro de Lucas Ferraz acreditando que nada naquele dia ainda pudesse me ferir mais.

Eu estava errada.

A chuva de Porto Alegre tinha começado antes da cerimônia e não parara nem por um minuto.

No cemitério, ela batia nos guarda-chuvas como um ruído branco, abafando soluços, orações e as frases educadas de gente que não sabia o que dizer a uma viúva de trinta e quatro anos.

Lucas tinha quarenta.

Era engenheiro, fundador de uma empresa de tecnologia para infraestrutura urbana e o tipo de homem que parecia carregar sempre uma resposta calma no bolso.

Queimava pão aos domingos, esquecia onde deixava os óculos e tinha o hábito irritante de conferir duas vezes se a porta estava trancada.

Na última semana de vida, passou a conferir três.

Eu notei.

Perguntei se havia alguma coisa errada.

Ele beijou minha testa e disse:

— Só quero ter certeza de que você está segura.

Na manhã do acidente, saiu cedo para uma reunião na sede da Ferraz Sistemas.

Horas depois, recebi a ligação que dividiu minha vida em duas partes: antes e depois.

O carro dele havia saído da estrada numa curva molhada da serra.

A polícia falou em pista escorregadia.

O hospital falou em trauma grave.

Eu cheguei tarde demais para ouvir sua voz uma última vez.

Nos quatro dias seguintes, sobrevivi como quem atravessa um prédio em chamas segurando a respiração.

Celina, mãe de Lucas, assumiu o funeral com uma eficiência quase militar.

Escolheu flores, igreja, horários, músicas.

Renato, o irmão mais velho, recebia cumprimentos como se fosse o chefe da família.

Mirela, a irmã mais nova, circulava entre advogados e funcionários da empresa perguntando discretamente sobre contratos, procurações e senhas.

Achei estranho.

Mas o luto transforma suspeita em culpa.

Toda vez que uma pergunta incômoda surgia, eu pensava que estava sendo injusta.

Que eles também tinham perdido alguém.

No cemitério, Celina me abraçou diante de dezenas de pessoas e murmurou no meu ouvido:

— Agora precisamos evitar decisões emocionais.

A terra nem havia coberto o caixão.

Eu me afastei sem responder.

Quando o carro me deixou em frente ao prédio, eu disse ao motorista que não precisava esperar.

Queria ficar sozinha.

Queria tirar o vestido preto encharcado, beber água, deitar no lado de Lucas na cama e chorar sem testemunhas.

O porteiro me viu entrar e pareceu desconfortável.

— Dona Sofia…

seus parentes subiram faz um tempo.

Parei no meio do hall.

— Meus parentes?

— A família do seu marido.

Disseram que a senhora tinha autorizado.

Meu estômago apertou.

Eu não tinha autorizado ninguém.

Subi de elevador sentindo uma estranha frieza substituir o cansaço.

Quando cheguei ao andar, a porta do apartamento estava encostada.

Lucas nunca deixava uma porta assim.

Empurrei.

A sala parecia ter sido revistada por pessoas que conheciam exatamente o que procuravam.

Não havia vandalismo.

Havia método.

Gavetas abertas.

Pastas empilhadas.

Fotografias viradas.

Duas malas no corredor.

O relógio antigo que pertencera ao pai de Lucas já estava embalado entre toalhas.

Uma escultura da nossa viagem a Montevidéu desaparecera da mesa lateral.

No chão, perto do escritório, vi um dos cadernos azul-marinho de Lucas.

Meu peito apertou.

Duas semanas antes da morte dele, ele havia me dito algo que na época soara paranoico.

— Se qualquer pessoa da minha família vier atrás dos cadernos

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