empresa do seu pai?”
“Sim.”
Sérgio havia trabalhado para a família por quinze anos.
Seis meses antes, porém, desaparecera da Ferraz Urbanismo depois de uma discussão com Lucas.
Na época, Augusto dissera que Sérgio havia cometido erros graves e pedido demissão.
Clara nunca acreditou completamente naquela versão.
Dentro da pasta havia uma carta.
Clara abriu.
Clara,
Se estes documentos chegaram até você, significa que não consegui conversar pessoalmente.
Há quase dois anos, operações financeiras vêm sendo feitas usando seu nome e sua participação societária.
Eu me recusei a continuar alterando registros.
Depois disso, fui afastado.
Clara sentiu o estômago apertar.
Abaixo da carta havia cópias de contratos bancários.
Empréstimos.
Garantias.
Transferências.
Quatro operações tinham a assinatura de Clara.
Nenhuma era verdadeira.
“Eu nunca assinei isso.”
André puxou uma cadeira e começou a examinar as páginas.
“Quanto?”
Eles somaram.
Mais de três milhões de reais.
Alguns valores haviam entrado em contas ligadas a empresas de fachada.
Outros pareciam ter sido usados para cobrir dívidas da própria Ferraz Urbanismo.
“Lucas estava usando você como garantia”, André disse.
“Sem eu saber.”
Clara continuou folheando.
Encontrou e-mails impressos.
Mensagens entre Lucas e uma pessoa identificada apenas como R.M.
Uma delas havia sido destacada por Sérgio.
Clara vai assinar o pacto patrimonial na manhã do casamento.
Depois disso, qualquer investigação externa pode atingir a empresa antes de atingir o patrimônio do marido.
Precisamos impedir que ela descubra tudo antes de a documentação ser regularizada.
Clara sentiu um frio atravessar o corpo.
André releu a frase.
“Regularizada?”
“Provavelmente significa falsificada melhor.”
Havia outra mensagem enviada na noite anterior.
Ela está desconfiada.
Se necessário, faça parecer que bebeu demais durante a festa.
Eu retiro a pasta do quarto dela depois.
André ergueu os olhos lentamente.
“Então o que estava na taça não era para te matar.”
“Era para me incapacitar.”
“E desacreditar qualquer coisa que você dissesse.”
Clara pensou em todas as vezes que Lucas a chamara de instável.
Sensível.
Dramática.
Ele não tinha escolhido aquela narrativa por acaso.
Tinha construído uma reputação ao redor dela durante anos.
Agora pretendia usá-la como arma.
Três batidas soaram na porta.
André se levantou.
“Quem é?”
“Renata.”
Clara e André trocaram um olhar.
“O que você quer?”, Clara perguntou.
“Contar quem é R.M.”
André abriu a porta apenas o suficiente para vê-la.
Renata estava sem casaco, os cabelos presos de qualquer jeito e o rosto molhado de lágrimas.
“Entre.”
Ela entrou e fechou a porta.
Viu os papéis sobre a mesa.
“Então vocês encontraram.”
Clara ficou de pé.
“Você sabia.”
“Parte.”
“Qual parte?”
Renata puxou uma cadeira, mas não se sentou.
“Lucas estava endividado.
Muito mais do que seu pai sabia.
Ele começou investindo dinheiro da empresa em projetos que ninguém havia aprovado.
Depois tentou recuperar o prejuízo tomando empréstimos.
Quando os bancos recusaram ampliar o limite dele, começou a usar empresas menores e documentos ligados a outros sócios.”
“Inclusive eu.”
Renata assentiu.
“Eu descobri há quatro meses.”
“E não me contou?”
“Ele ameaçou tirar meus filhos de mim.
Disse que provaria que eu sabia desde o começo.”
Clara encarou a cunhada.
“Quem é R.M.?”
Renata demorou a responder.
“Rafael Monteiro.”
O nome não significou nada para André.
Para Clara, significou imediatamente.
Rafael era advogado da empresa havia quase uma década.
O homem que estivera na cerimônia naquela manhã.
O