segurei Aurora enquanto sua mãe descobria o prazer de escolher as próprias cortinas.
Seis meses depois do nascimento, voltamos a uma consulta de rotina da bebê.
Dessa vez, não havia corredor reservado nem portas vigiadas por funcionários obedientes a um diretor poderoso.
A pediatra examinou Aurora, respondeu às perguntas de Elisa e deixou que minha filha participasse de cada decisão.
Na saída, passamos por um jardim iluminado pelo sol da manhã.
Aurora estava acordada no carrinho, observando as folhas se moverem com o vento.
Elisa parou diante de uma árvore e retirou cuidadosamente a menina do carrinho.
— Sabe o que eu mais lembro daquele dia no hospital, mãe?
Pensei que fosse falar dos hematomas, da assinatura falsa ou da voz ameaçadora de Renato.
Mas ela disse outra coisa.
— O coração da Aurora.
Fiquei olhando para as duas.
— Quando ouvi aquele som, achei que talvez fosse a última vez — continuou.
— Eu estava tão assustada que não conseguia imaginar o futuro.
Aurora segurou um dos dedos da mãe.
— Agora, quando ela ri, parece que está me lembrando de que existe um amanhã.
Eu me aproximei e ajeitei a manta sobre os ombros da minha neta.
— Existe, filha.
E você tem o direito de construí-lo do seu jeito.
Elisa sorriu.
Depois caminhou pelo jardim carregando a pequena Aurora, sem olhar para trás.
Observei minha filha seguir em direção ao portão, com passos tranquilos, a cabeça erguida e a criança aconchegada contra o peito.
Naquela manhã, lembrei-me da mulher apavorada que eu encontrara no vestiário do Hospital do Farol.
Lembrei-me da ameaça que quase a fizera acreditar que sua vida pertencia a outra pessoa.
E compreendi que minha maior vitória não tinha sido assistir à queda de um homem poderoso.
Tinha sido ver minha filha atravessar uma porta aberta sem precisar pedir permissão a ninguém.
Aurora soltou uma gargalhada quando uma folha caiu perto de seus pés.
Elisa riu junto.
E eu, que durante tantos meses vivera com medo de não ouvir novamente aquela risada, fiquei ali por mais alguns segundos, agradecendo em silêncio pelo som mais bonito do mundo.
O som de uma mulher que finalmente podia viver em paz.