levada adiante.
— Existe outra coisa que vocês precisam saber — disse ela.
Elisa começou a chorar.
— Conta para minha mãe — pediu.
— Eu não consigo mais esconder.
Duas semanas antes, Elisa recebera a visita de uma mulher chamada Teresa Nogueira, irmã de Joana Nogueira, paciente que havia morrido depois de uma cesariana realizada no Hospital do Farol dois anos antes.
Elisa trabalhara durante algum tempo num projeto de acolhimento para famílias de gestantes.
Não exercia função médica, mas ajudava a orientar familiares sobre serviços de apoio e canais de comunicação.
Teresa procurara o projeto com cópias de documentos obtidos durante a internação da irmã.
Havia discrepâncias entre o relato fornecido à família e alguns registros clínicos que Teresa conservava.
Um horário não correspondia ao registro oficial.
Uma intercorrência importante aparecia no documento entregue à família, mas estava ausente do resumo administrativo que havia sido apresentado posteriormente.
Isso não provava, por si só, a causa da morte.
Mas justificava uma investigação séria.
Elisa procurou o setor de qualidade e solicitou que o caso fosse reavaliado por profissionais independentes.
Renato descobriu a iniciativa antes da reunião marcada.
Naquela noite, chegou em casa furioso.
— Você quer destruir o hospital por causa de uma família que nem conhece? — perguntou.
Elisa respondeu que queria apenas que os documentos fossem examinados.
Ele arrancou de suas mãos a pasta que Teresa lhe entregara.
— Você não sabe com quem está mexendo.
Nos dias seguintes, as ameaças se tornaram constantes.
Primeiro, Renato exigiu que Elisa abandonasse o projeto.
Depois, começou a controlar suas ligações e visitas.
Dizia que a gravidez a deixara sensível e que ela não tinha condições de tomar decisões difíceis.
Quando Elisa anunciou que pretendia passar algumas semanas comigo, ele perdeu o controle e a agrediu.
Ela não me contou porque acreditava que Renato poderia usar o hospital para cumprir a ameaça sobre a cesariana.
— Eu achei que, se obedecesse até o nascimento, conseguiria sair depois — confessou.
Acariciei seus cabelos.
— Você não precisa esperar mais.
Camila explicou que o trauma físico numa gestação tão avançada exigia monitoramento e exames, mesmo que o ultrassom inicial mostrasse atividade cardíaca fetal tranquilizadora.
Elisa pediu para continuar o atendimento em outro estabelecimento.
A médica concordou em organizar uma transferência assistida, com a documentação clínica necessária.
Enquanto a equipe avaliava as condições de transporte, Tânia telefonou novamente.
Ela havia contatado a Maternidade Horizonte, que não pertencia ao grupo de Renato.
A obstetra Helena Azevedo estava informada sobre a situação e preparava uma avaliação independente.
A advogada também orientava Elisa sobre o registro da violência e as medidas protetivas que poderiam ser solicitadas.
Parecia que finalmente havíamos encontrado uma saída.
Então Renato entrou.
Vestia um jaleco branco impecável.
Atrás dele estavam o chefe da segurança e o anestesista Mauro Peixoto, um dos médicos com quem trabalhava havia muitos anos.
Meu genro não cumprimentou a própria esposa.
Seu olhar foi diretamente para a pasta de documentos.
— Quem autorizou vocês a mexer no agendamento? — perguntou.
Camila respondeu com firmeza.
— A paciente questionou uma autorização cirúrgica e solicitou transferência.
Estou garantindo que ela seja avaliada com segurança.
Renato soltou uma risada curta.
— Elisa está emocionalmente instável.
Eu sou o marido dela.
Conheço o histórico psicológico da minha esposa.
— Eu não estou