espaço.
Pintou uma parede da sala de azul profundo.
Adotou um gato idoso chamado Nino.
E voltou a dormir sem acordar no meio da noite pensando se havia esquecido alguma obrigação invisível.
No Natal seguinte, Clara saiu do plantão às quatro e meia.
Sua irmã, Mariana, mandou uma mensagem dizendo que o jantar estava quase pronto.
Clara respondeu que chegaria em vinte minutos.
Quando entrou no apartamento de Mariana, encontrou crianças correndo pelo corredor, música baixa, panelas abertas na cozinha e uma mesa completamente desorganizada.
Ninguém gritou.
Ninguém olhou para o relógio.
Mariana apenas entregou uma taça de vinho e apontou para uma travessa.
— Prova isso e me diz se coloquei sal demais.
Clara riu.
— Eu nem tirei o casaco.
— Melhor ainda.
Você está oficialmente dispensada de qualquer responsabilidade por cinco minutos.
Clara ficou parada na cozinha, ouvindo as vozes ao redor.
Nada estava perfeito.
Um guardanapo caiu no chão.
Uma criança derrubou refrigerante.
A campainha tocou enquanto alguém gritava que o pão estava queimando.
E, ainda assim, pela primeira vez em muitos anos, Clara entendeu como um lar deveria parecer.
Não organizado.
Não impecável.
Seguro.
Ela tirou o casaco, colocou-o sobre uma cadeira e foi ajudar a irmã.
Antes de se sentar, seu telefone vibrou.
Era uma mensagem de Gabriel.
“Feliz Natal.
Espero que você esteja bem.”
Clara ficou olhando para a tela por alguns segundos.
No passado, teria sentido raiva.
Ou culpa.
Talvez nostalgia.
Naquele momento, não sentiu nada que exigisse resposta.
Virou o telefone para baixo.
Mariana colocou uma travessa no centro da mesa.
— Clara, vem.
Todo mundo está esperando.
Ela sorriu.
— Já estou indo.
Dessa vez, ninguém estava esperando que ela servisse.
Estavam apenas esperando que ela se sentasse.