admissão direta.
Teresa sentou-se novamente.
Augusto passou a mão pelo rosto.
Bianca permanecia em pé ao lado da cadeira, chorando em silêncio.
Clara percebeu então que ninguém mais falava sobre a mesa não estar posta.
Ninguém estava com fome.
Gabriel olhou para as fotografias e depois para Clara.
— Eu posso consertar isso.
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Você ainda acha que estamos negociando.
— Nove anos não desaparecem por causa de um erro.
— Dezesseis meses não são um erro.
São centenas de decisões.
Ele se aproximou.
— Clara, escuta.
Ela recuou um passo.
— Não me toca.
Gabriel parou.
Pela primeira vez, houve algo parecido com insegurança em sua expressão.
Clara tirou o celular do bolso.
— Antes de vir para cá, conversei com um advogado.
Gabriel ficou imóvel.
— Você fez o quê?
— Entreguei cópias de tudo.
— No Natal?
A pergunta era tão absurda que até Augusto olhou para o filho com incredulidade.
Clara desbloqueou a tela.
— Seu senso de calendário não parece ter impedido você de passar a noite de ontem com Daniela.
Gabriel não respondeu.
— Meu advogado vai protocolar o pedido de separação e solicitar medidas para impedir novas retiradas significativas das contas compartilhadas até que o patrimônio seja analisado.
— Você não pode congelar meu dinheiro.
— Nosso dinheiro, lembra?
Gabriel estendeu a mão.
— Me dá esse telefone.
Clara deu outro passo para trás.
Augusto levantou-se.
— Não toque nela.
Gabriel olhou para o pai.
A mudança na sala foi imediata.
Até aquele momento, ele ainda acreditava controlar a situação.
Agora não.
Clara abriu a mensagem do advogado.
O texto estava pronto.
Bastava confirmar.
Gabriel percebeu.
— Não faça isso assim.
— Assim como?
— Na frente da minha família.
Clara observou a mesa, as velas, a rena dourada, os pratos intocados.
— Você começou esta tarde gritando comigo na frente da sua família porque eu não cheguei a tempo de servir o almoço.
Ele ficou em silêncio.
— Então acho apropriado que eles vejam o que realmente estava acontecendo nesta casa.
Clara pressionou enviar.
O telefone vibrou quase imediatamente.
Mas não era o advogado.
Era Joana.
Uma nova mensagem.
Clara abriu.
“Preciso falar com você antes que confronte Gabriel novamente.
Descobri algo sobre Daniela.
Ela não apareceu na vida dele por acaso.”
Clara sentiu o sangue gelar.
Gabriel percebeu a mudança em seu rosto.
— O que foi?
Ela não respondeu.
Saiu da sala e caminhou até a cozinha.
Joana ligou no mesmo instante.
— Clara?
— Estou ouvindo.
— Você está com ele?
— Sim.
— Não mencione o que vou contar até eu terminar.
Clara encostou uma mão na bancada.
— Fala.
Joana respirou fundo.
— Daniela já conhecia Gabriel antes do caso começar.
E, mais importante, ela conhecia você.
Clara franziu a testa.
— Eu nunca vi essa mulher.
— Talvez não pessoalmente.
Houve um pequeno silêncio.
— Há três anos, Daniela trabalhou como coordenadora de eventos para a clínica onde você trabalha.
Ela teve acesso à festa de aniversário de vinte anos da empresa e à lista de funcionários.
Clara se lembrou vagamente do evento.
— Isso não significa nada.
— Eu também achei que não.
Até encontrar uma ação trabalhista antiga.
— Contra quem?
— Contra a empresa de Gabriel.
Clara