quarenta minutos seguintes montando um plano simples.
Nada cinematográfico.
Nada heroico.
Apenas algo baseado em uma vantagem que Renato desconhecia: eu conhecia a antiga clínica.
Tinha feito plantões ali durante a residência, antes de o prédio ser vendido.
Sabia que havia uma passagem de serviço ligando a lavanderia ao corredor de exames.
Samuel ficou encarregado de copiar os arquivos do cartão e enviá-los automaticamente para três jornalistas e um promotor federal caso não cancelássemos o envio antes da meia-noite.
Minha mãe dirigiria até a entrada principal com um envelope falso.
Eu entraria pelos fundos.
Quando chegamos, a clínica parecia um prédio morto.
As janelas estavam cobertas.
Uma única luz acesa brilhava no segundo andar.
Entrei por uma janela baixa da antiga lavanderia.
O corredor cheirava a mofo e desinfetante velho.
Ouvi vozes antes de chegar à sala de exames.
— Ela virá — dizia Renato.
— Se Marta contou tudo, não virá sozinha — respondeu Daniel.
Então ouvi meu pai.
— Vocês dois continuam cometendo o mesmo erro.
— Qual? — Renato perguntou.
— Acham que minha filha precisa que eu diga o que fazer.
Senti vontade de rir e chorar ao mesmo tempo.
Espiei pela fresta da porta.
Meu pai estava sentado em uma cadeira, sem amarras.
Daniel segurava uma arma.
Renato estava perto da janela.
A situação era diferente do que eu esperava.
— Por que ele está solto? — pensei em voz baixa.
Então entendi.
Meu pai não era prisioneiro.
Pelo menos não de Renato.
Daniel apontou a arma para os dois.
— O cartão.
Agora.
Renato levantou as mãos.
— Não está comigo.
— Você teve vinte anos para encontrar os arquivos.
— Porque Álvaro nunca confiou em mim o bastante para dizer onde guardava.
Meu pai respondeu com calma:
— E eu estava certo.
Daniel riu.
— Vocês ainda não entenderam.
A Northstar não importa mais.
Metade dos nomes da lista está aposentada ou morta.
Eu quero as contas.
Ali estava a motivação real.
Não lealdade.
Não conspiração política.
Dinheiro.
Centenas de milhões escondidos em contas antigas que provavelmente ainda podiam ser acessadas com as informações certas.
Meu celular vibrou no bolso.
Por um instante, todos na sala ficaram imóveis.
Daniel virou a cabeça.
Eu não esperei.
Empurrei a porta e lancei a pesada lanterna contra a mão dele.
A arma caiu.
Meu pai se levantou ao mesmo tempo e empurrou Daniel contra a parede.
Renato chutou a arma para longe.
Daniel tentou reagir, mas ouviu-se o som de sirenes do lado de fora.
Minha mãe aparecera na entrada exatamente como combinado, mas não sozinha.
Ela tinha levado agentes federais de uma unidade diferente, contatados por Samuel através do promotor.
Em menos de três minutos, Daniel estava algemado.
Renato também.
— Por quê? — perguntei a Renato enquanto o levavam.
Ele parou.
— Porque eu achei que poderia controlar o vazamento.
Depois achei que poderia controlar Daniel.
Passei vinte e cinco anos tentando consertar uma escolha errada com outra pior.
Não havia desculpa suficiente para o que ele tinha feito.
Mas havia verdade na exaustão do rosto dele.
Quando finalmente fiquei sozinha com meu pai, nenhuma frase parecia adequada.
Então dei um tapa no rosto dele.
O som ecoou pelo corredor vazio.
Ele não reclamou.
— Isso é por me fazer enterrar você.
— Justo.