a porta da casa.
Estava aberta.
Saímos do carro.
Lá dentro, uma cadeira estava caída.
Uma caneca de café quebrada no chão.
Um mapa preso à parede tinha sido arrancado pela metade.
Meu pai não estava.
Sobre a mesa havia um envelope com meu nome.
Desta vez, a tinta ainda parecia fresca.
Abri.
Helena,
Se você chegou aqui com sua mãe, Daniel se revelou e a primeira parte funcionou.
A segunda depende de você.
Dentro do envelope havia uma fotografia recente.
Meu pai estava nela, vivo, sentado diante de uma janela.
Ao lado dele havia um homem que eu conhecia muito bem.
Dr.
Renato Vale, o médico da família que havia declarado a morte de meu pai.
No verso, uma frase:
Ele não falsificou minha morte para me ajudar.
Ele falsificou porque precisava de tempo para terminar o que começou em 2001.
Minha mãe levou a mão à boca.
— Renato?
Antes que eu perguntasse, ouvimos um carro chegando à marina.
Minha mãe apagou a luz.
Ficamos imóveis.
Faróis atravessaram as persianas.
Uma porta bateu.
Passos se aproximaram.
Segurei a primeira coisa que encontrei, uma pesada lanterna de metal.
A maçaneta girou.
A porta se abriu.
Samuel Pike, o funcionário do cemitério, entrou encharcado.
— Graças a Deus — disse ele.
— Vocês chegaram antes deles.
Minha mãe não abaixou a guarda.
— Como nos encontrou?
Samuel colocou as mãos onde podíamos vê-las.
— Álvaro me deu duas instruções.
Entregar a chave a Helena e, depois, esperar no cemitério até alguém abrir o túmulo.
— Abriram? — perguntei.
Ele assentiu.
— Menos de uma hora depois do funeral.
— Quem?
Samuel tirou o celular e mostrou uma fotografia ruim, feita à distância.
Dois homens estavam junto à sepultura.
Um deles era Daniel.
O outro era o Dr.
Renato Vale.
Minha mãe fechou os olhos.
— Então Renato e Daniel trabalham juntos.
— Não exatamente — disse Samuel.
— Eles começaram a discutir.
Daniel apontou uma arma para Renato.
Meu telefone vibrou.
Desta vez, era uma mensagem com uma fotografia anexada.
Meu pai estava sentado em uma cadeira, as mãos livres, olhando para a câmera.
Atrás dele, reconheci o interior de uma antiga clínica abandonada onde Renato trabalhara anos antes.
A mensagem dizia:
Traga o pendrive da caixa até meia-noite.
Sozinha.
Olhei para minha mãe.
— Eu não vi nenhum pendrive.
Samuel apontou para minha mão.
Ainda segurava a aliança de meu pai, que eu havia tirado da caixa sem perceber.
Examinei-a.
Havia uma pequena fenda no aro interno.
Minha mãe pegou uma faca fina da cozinha e pressionou a lateral.
O metal se abriu.
Dentro havia um minúsculo cartão de memória.
— É isso que todo mundo quer — disse ela.
— O que tem aqui?
— A lista completa — respondeu Samuel.
— Nomes, contas, pagamentos e provas acumuladas durante vinte e cinco anos.
Olhei novamente para a foto de meu pai.
— Então vamos entregar.
Minha mãe encarou-me.
— Não.
— Eles estão com ele.
— E se entregarmos, matam seu pai e qualquer chance de provar tudo.
— Eu não vou deixá-lo lá.
— Nem eu.
Foi a primeira vez naquela noite em que vi algo conhecido no rosto dela: a mulher que sempre se colocava entre mim e qualquer perigo quando eu era criança.
Passamos os