e comentários sobre quais espaços poderiam ser modificados.
Em uma das conversas, ele escrevera que eu estava apenas esperando o casamento para formalizar a transferência.
— Por que ninguém me perguntou diretamente? — perguntei.
Denise pareceu envergonhada.
— Porque Rafael dizia que o assunto era delicado para a senhora desde a morte do seu marido.
Ele pediu que não tocássemos nisso.
Era inteligente.
Ao me retratar como uma viúva emocional demais para falar sobre a propriedade, ele transformara minha ausência de consentimento em algo que ninguém deveria questionar.
Ainda assim, não inocentava totalmente os três.
— Vocês estavam preparados para ocupar minha casa sem sequer uma conversa comigo.
Celso assentiu.
— Estávamos.
Foi errado.
Eu disse que poderiam deixar as caixas no galpão naquela noite enquanto resolvessem onde ficariam.
A casa principal, porém, estava fora de questão.
Eles aceitaram.
Rafael chegou quarenta minutos depois.
Bianca veio em outro carro.
Assim que ele desceu, apontou para os caminhões.
— Isso é ridículo.
Mãe, deixe todo mundo entrar e amanhã resolvemos.
Eu estava na varanda com Laura, minha advogada, que havia chegado poucos minutos antes.
Rafael parou quando a viu.
— Você chamou uma advogada?
— Chamei alguém que entende a diferença entre expectativa e propriedade.
Ele subiu os degraus.
— Eu sou seu filho.
— Sim.
— Essa casa vai acabar sendo minha.
— Você continua repetindo isso como se fosse uma escritura.
Bianca permaneceu perto do carro.
O vestido de noiva ainda estava nela, mas o véu havia desaparecido.
Parecia exausta.
Celso saiu da cozinha.
— Rafael, quero meu dinheiro de volta.
Meu filho se virou.
— Nós vamos resolver isso depois.
— Não.
Quero saber onde estão os sessenta e oito mil reais.
Rafael passou a mão pelos cabelos.
— Eu usei parte para despesas do casamento.
Bianca levantou a cabeça.
— Quanto?
Ele ficou calado.
— Rafael, quanto?
— Trinta e dois mil.
A expressão dela mudou completamente.
— Você usou o dinheiro dos meus pais para pagar o casamento e me disse que tinha recebido um bônus?
— Eu ia devolver.
Celso deu um passo à frente, mas Laura ergueu a mão.
— É melhor ninguém transformar essa conversa em confronto físico.
Ele parou.
Rafael olhou para mim.
— Você está gostando disso, não está?
A acusação me surpreendeu mais do que a confissão.
— Gostando?
— Finalmente pode provar que manda em tudo.
Eu desci um degrau.
— Seu pai e eu trabalhamos trinta anos para construir o que temos.
Mandei você para a faculdade.
Ajudei no primeiro carro.
Emprestei dinheiro para a entrada do seu apartamento.
Nunca cobrei de volta.
Se você confundiu ajuda com direito de propriedade, essa confusão termina hoje.
Ele ficou em silêncio.
— Você poderia dividir — murmurou.
— Eu poderia.
E talvez tivesse ajudado se vocês tivessem pedido.
Mas existe uma diferença enorme entre receber ajuda e tomar aquilo que alguém ainda não lhe deu.
Laura então explicou calmamente que nenhum documento transferia a propriedade para Rafael e que qualquer representação dele como proprietário deveria cessar imediatamente.
Também pedi que ele devolvesse a chave reserva.
— Não estou com ela.
— Então todas as fechaduras serão trocadas.
— Você vai me proibir de entrar na casa onde cresci?
— Sem convite, sim.
Ele me chamou de cruel.
Talvez esperasse que