Minha mãe chamou meu trabalho de inútil — até descobrirmos o que ela escondia

em três horas”, Isabela protestou.

Clara abriu a porta.

“Então vocês ainda têm três horas para terminar tudo.”

Helena a seguiu até a varanda.

“Se sair agora, não precisa voltar.”

Clara parou.

“Talvez seja uma boa ideia.”

Entrou no carro e ficou alguns minutos em silêncio.

A primeira sensação foi culpa.

Depois veio outra coisa: clareza.

As mesas do jardim estavam alugadas no nome dela.

As cadeiras estavam no nome dela.

Os aquecedores, a iluminação e as louças também.

E ninguém havia devolvido o depósito.

Clara ligou para Renato, supervisor da locadora.

“Preciso cancelar a autorização de permanência dos equipamentos.”

Ele pareceu surpreso.

“O evento é hoje.”

“Eu sei.”

“Houve algum problema com nosso material?”

“Nenhum.

O problema é que a responsável financeira sou eu e não autorizo mais o uso.”

Renato conferiu o contrato.

“Podemos recolher, mas preciso perguntar: você tem certeza?”

Clara olhou para a casa pelo retrovisor.

“Tenho.”

Menos de uma hora depois, dois veículos da empresa estacionaram diante da residência.

Helena saiu sorrindo, supondo que trouxessem alguma entrega atrasada.

O sorriso desapareceu quando Renato apresentou a ordem de retirada.

“Retirada? Que retirada?”

“A contratante cancelou a locação.”

“Eu sou a contratante.”

Renato conferiu a prancheta.

“Não, senhora.

O contrato está no nome de Clara Moreira.”

A primeira mesa foi dobrada.

Depois outra.

Os funcionários começaram a empilhar cadeiras.

Foi então que Isabela ligou para a irmã.

“Clara…

quem você chamou?”

Clara ouviu a mãe gritando ao fundo.

“Ninguém está autorizado a levar nada!”

Renato respondeu com calma:

“A responsável pelo contrato autorizou.”

Isabela estava chorando.

“Mamãe disse que você está tentando destruir meu aniversário.”

Clara respirou fundo.

“Eu não destruí sua festa.

Só parei de financiar uma festa que não é minha.”

“Financiar?”

A palavra saiu diferente.

“O que foi?”

“Mamãe disse que ela pagou tudo.”

Clara ficou imóvel.

“Ela não me reembolsou.”

Do outro lado, Isabela parou de falar.

Então Clara ouviu Roberto perguntar a Renato quem havia pago o depósito.

“A senhora Clara”, ele respondeu.

Helena tomou o telefone da filha.

Mas, em vez de falar com Clara, virou-se para o marido.

“O que você contou para ela?”

Roberto respondeu baixo, mas Clara ouviu:

“Eu contei exatamente o que você mandou eu contar.”

A ligação terminou.

Clara permaneceu no carro tentando interpretar aquela frase.

Dois minutos depois, recebeu uma mensagem de Isabela pedindo que não fosse embora da região.

Vinte minutos mais tarde, as duas se encontraram numa cafeteria.

Isabela chegou carregando uma pasta bege.

“Encontrei isso no escritório do papai.”

Clara abriu a pasta.

Havia recibos, comprovantes de transferência e uma planilha impressa com despesas da festa.

Em diversas linhas aparecia o nome de Clara, acompanhado por pagamentos que ela nunca recebera.

“Papai separou seis mil reais para a festa”, Isabela explicou.

“Mamãe disse que estava usando esse dinheiro para pagar os fornecedores que você conseguiu.”

Clara passou os olhos pelos documentos outra vez.

“Ela não me transferiu nada.”

Isabela empalideceu.

“Então onde foi parar o dinheiro?”

Clara não sabia.

Mas uma folha no fundo da pasta trouxe um problema ainda maior.

Era o comprovante de uma transferência para a Vértice Serviços e Eventos.

Clara conhecia aquela empresa.

Meses antes, seu empregador havia suspendido qualquer negociação com a Vértice depois de encontrar inconsistências em propostas comerciais.

Não havia condenação nem acusação criminal; simplesmente

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