Ele Jogou Café Fervendo Nela — Mas Não Sabia o Que Ela Já Tinha Descoberto

O café atingiu o rosto de Marina antes que ela percebesse que Daniel havia levantado a caneca.

Um instante antes, ela estava sentada à mesa da cozinha, olhando para uma torrada que mal tinha tocado.

A luz da manhã atravessava as persianas e riscava o piso de madeira com faixas douradas.

O rádio estava ligado bem baixo.

Do outro lado da mesa, Camila, irmã de Daniel, mexia distraidamente no celular.

Então veio o calor.

O líquido atravessou a bochecha direita de Marina, escorreu pelo maxilar e atingiu seu pescoço.

A caneca bateu na borda da mesa antes de cair de lado, espalhando mais café sobre a toalha.

Marina gritou e empurrou a cadeira para trás.

A madeira raspou no chão com violência.

Daniel permaneceu sentado.

Não houve susto em seu rosto.

Não houve arrependimento.

Apenas uma irritação fria, como se Marina tivesse derrubado alguma coisa e criado um problema desnecessário.

— Se você não consegue fazer uma coisa simples quando eu peço — ele disse —, então pode sair desta casa.

Marina levou a mão ao rosto por reflexo, mas a dor aumentou ao toque.

Correu até a pia, abriu a torneira e molhou um pano limpo com água fria.

Camila nem levantou.

— Tudo isso por causa de um cartão — comentou, pegando outra torrada.

— Você sempre faz parecer que estamos tentando roubar você.

Marina pressionou o pano contra a pele e respirou com dificuldade.

O cartão.

Era aquilo que tinha levado a conversa até ali.

Camila queria abrir uma clínica de estética em um bairro sofisticado da cidade.

O ponto comercial já estava escolhido.

Os móveis tinham sido encomendados.

Havia fotos de referência, fornecedores e até uma página em rede social pronta para anunciar a inauguração.

Só faltava dinheiro.

Muito dinheiro.

Naquela manhã, Camila dissera que precisava fazer um depósito imediato para garantir o contrato do imóvel.

Queria usar um cartão ligado a uma conta exclusivamente de Marina.

— É só temporário — Camila argumentara.

— Assim que a linha de crédito sair, eu devolvo.

— Não — Marina respondeu.

A palavra foi simples.

Foi também a primeira vez, em muito tempo, que ela não apresentou desculpas, justificativas ou alternativas depois de negar alguma coisa à família do marido.

Daniel ergueu os olhos lentamente.

— O que você disse?

— Eu disse não.

O silêncio que se seguiu havia sido suficiente para Marina entender que aquilo não era uma negociação.

Durante anos, Daniel tratara os bens deixados pelo pai de Marina como se fossem patrimônio conjugal.

Sempre usava a mesma lógica: marido e mulher não deveriam esconder dinheiro um do outro.

O problema era que Marina nunca escondera nada que pertencesse ao casal.

A conta em questão existia antes do casamento e estava vinculada a recursos herdados especificamente por ela.

Daniel não contribuíra para aquilo.

Camila, menos ainda.

Mas havia outro motivo para a recusa.

Três semanas antes, Marina recebera uma ligação incomum de sua gerente bancária.

Haviam surgido tentativas de consulta e movimentação relacionadas a documentos ligados ao nome dela.

Algumas referências levavam a empresas associadas a Camila.

Nenhum dinheiro havia sido retirado, mas havia perguntas suficientes para que o banco recomendasse cautela.

Marina não contou a Daniel.

Em vez disso, contratou um auditor financeiro indicado por sua advogada, Helena Duarte.

A decisão fora tomada em

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