O barulho das máquinas ainda parecia preso na minha cabeça quando estacionei o carro em frente ao nosso pequeno sobrado no bairro Água Verde, em Curitiba.
Eu tinha passado as últimas quatorze horas dentro da fábrica, tentando resolver uma sequência de problemas que tinham parado parte da produção.
O cheiro de óleo industrial ainda estava impregnado na minha roupa, meus dedos estavam marcados por pequenos cortes e meu corpo inteiro implorava por uma noite de descanso.
Naquela fase da minha vida, eu aceitava qualquer hora extra que aparecesse.
Não porque gostava de ficar longe de casa.
Mas porque Clara estava grávida de sete meses e nós estávamos prestes a receber nosso primeiro filho.
Eu queria que ele chegasse em um lar seguro.
Queria terminar o quarto do bebê, pagar as contas sem preocupação e garantir que Clara pudesse aproveitar os últimos meses de gravidez sem carregar nenhum peso além da própria barriga.
Todos os dias, antes de sair para trabalhar, eu beijava a testa dela e prometia que aquilo tudo valeria a pena.
Naquela noite, porém, quando coloquei a chave na porta, senti que alguma coisa estava errada.
Não foi uma sensação vaga.
Foi algo imediato.
A casa, que normalmente tinha o cheiro do café que Clara fazia pela manhã ou do sabonete que ela usava depois do banho, estava tomada por outro tipo de odor.
Comida fria.
Poeira.
Produtos de limpeza.
E algo parecido com abandono.
Abri a porta devagar.
A primeira coisa que vi foi a sala.
Minha sala.
O lugar onde eu e Clara tínhamos passado meses escolhendo móveis simples, colocando fotos nas paredes e imaginando nosso filho dando os primeiros passos.
Agora havia caixas abertas no canto, roupas empilhadas sobre uma cadeira, copos espalhados pela mesa e sacolas de comida amassadas perto do sofá.
Parecia que alguém tinha transformado nossa casa em uma sala de espera sem dono.
No sofá, meu irmão Renato estava jogado com um controle de videogame nas mãos.
Ele tinha trinta e dois anos, três anos mais velho que eu, e sempre foi alguém que sabia encontrar uma maneira de escapar das consequências dos próprios problemas.
Ao lado dele estava minha tia Márcia, mexendo no celular e reclamando da conexão de internet.
Eles nem perceberam minha chegada por alguns segundos.
“Vocês chegaram a jantar?” perguntei.
Renato olhou rapidamente para mim.
“Ah, você chegou.
A gente pediu alguma coisa mais cedo.”
Ele apontou para a mesa cheia de embalagens.
“Clara disse que não queria comer.”
A frase pareceu simples.
Mas alguma coisa nela me incomodou.
Clara sempre tentava comer direito durante a gravidez.
Ela fazia listas de alimentos, marcava consultas e cuidava de cada detalhe porque tinha medo de qualquer problema com o bebê.
“Cadê ela?” perguntei.
Márcia nem levantou os olhos.
“Na cozinha.
Organizando umas coisas.”
Organizando.
Era uma palavra estranha para aquela situação.
Eu conhecia Clara.
Ela não deixaria a casa daquele jeito por vontade própria.
Dei alguns passos pelo corredor.
Antes mesmo de chegar à cozinha, ouvi a torneira aberta.
Depois ouvi um pequeno soluço.
Parei.
Por um instante, pensei que talvez tivesse entendido errado.
Então entrei.
E vi a cena que mudou completamente a forma como eu enxergava aqueles últimos meses.
Clara estava de costas para mim, descalça sobre o piso frio, tentando lavar uma panela grande demais para