o contrato, o bônus e, principalmente, a chance de mostrar ao pai que merecia ocupar o cargo.
Então acessou a sala dele enquanto ele estava numa ligação.
Abriu uma versão do contrato.
Removeu a cláusula.
Usou uma sessão administrativa que permanecera ativa.
E mandou o arquivo para o cliente.
Ela jurou que pretendia corrigir depois.
Nunca corrigiu.
Meu pai parecia vinte anos mais velho.
— Você podia ter colocado a empresa numa ação milionária.
— Eu fechei um contrato que todo mundo dizia que era impossível.
— Você mentiu.
A palavra veio baixa.
Clara olhou para ele como uma criança pega quebrando alguma coisa valiosa.
— Eu estava tentando provar que conseguia.
— Para quem?
Ela demorou para responder.
— Para você.
A raiva no rosto do meu pai cedeu por um instante.
Ali estava a parte que tornava tudo pior.
Clara não era uma vilã de desenho animado.
Era alguém que passara a vida inteira tentando alcançar um padrão que nosso pai mudava sempre que ela chegava perto.
Eu era o filho confiável.
O que resolvia problemas.
O que ele chamava quando havia incêndio.
Ela era a filha carismática que ele elogiava em público e corrigia em particular.
Nada disso justificava o que fizera.
Mas explicava por que ela se convencera de que resultado era mais importante que processo.
Meu pai sentou novamente.
— Por que você não veio até mim?
Clara riu, mas havia lágrimas contidas nos olhos.
— Porque você teria chamado o Rafael.
Ninguém disse nada.
A frase me atingiu também.
Antes que meu pai respondesse, Helena colocou outro envelope sobre a mesa.
— Ainda não terminamos.
No canto havia uma data de três anos antes.
Meu pai reconheceu o nome do remetente imediatamente.
Eduardo Bastos.
Ex-gerente de contratos.
Ele havia pedido demissão seis meses antes dizendo que estava exausto e queria mudar de cidade.
— O que é isso? — perguntou meu pai.
Helena abriu o envelope.
Dentro havia cópias de mensagens, registros de alterações e uma carta assinada.
Eduardo afirmava ter identificado mudanças não autorizadas em contratos muito antes de Clara assumir a diretoria.
As alterações não haviam sido feitas por ela.
Tinham sido feitas por outra pessoa.
Meu pai leu o primeiro nome e ficou em silêncio.
Era Sérgio Almeida, antigo diretor comercial e amigo dele havia mais de vinte anos.
Sérgio tinha se aposentado no início daquele ano com festa, homenagem e um relógio caro entregue pelo próprio meu pai.
Durante meses, Clara havia aprendido a contornar controles justamente observando práticas que Sérgio tratava como normais.
Eduardo tentou denunciar.
Segundo a carta, foi orientado a não criar problema sem provas definitivas.
A orientação viera do gabinete da presidência.
Meu pai levou a mão à testa.
— Eu mandei arquivar uma reclamação dele — disse.
Helena assentiu.
— Você disse que Sérgio tinha sua confiança.
O padrão finalmente ficou claro.
O problema não começara com Clara.
Também não começara comigo.
Começara numa cultura em que pessoas próximas ao fundador recebiam o benefício da dúvida enquanto funcionários precisavam de provas impossíveis para serem ouvidos.
Eu tinha repetido esse comportamento protegendo Clara.
Meu pai o criara protegendo Sérgio.
E Clara aprendera que regras eram flexíveis quando o resultado agradava a pessoa certa.
Beatriz foi a primeira a falar.
— Precisamos decidir medidas imediatas.
A partir