— Que irregularidades?
Listei uma por uma.
Descontos prometidos fora da alçada.
Créditos concedidos sem aprovação financeira.
Prazos reescritos depois de reuniões comerciais.
Benefícios dados a clientes específicos sem registro.
Nada parecia gigantesco isoladamente.
Juntos, contavam outra história.
Clara bateu a mão na mesa.
— Eu estava tentando fechar negócios.
— Então por que alterar documentos depois?
— Porque o sistema é lento.
— O sistema não coloca minha assinatura em um arquivo sozinho.
Silêncio.
Lívia conectou um notebook a uma tela na parede.
— Os registros mostram que a credencial de Rafael foi usada numa estação pertencente à assistente da senhora Clara às 21h14 de uma sexta-feira.
Clara respondeu rápido demais.
— Minha assistente usa aquela estação o tempo todo.
— Ela estava de férias.
Minha irmã congelou.
Uma fração de segundo.
Mas suficiente.
Meu pai viu.
— Clara?
— Eu não lembro onde estava naquela noite.
Lívia trocou a tela.
— O registro do estacionamento mostra seu carro entrando às 20h51.
Clara não respondeu.
Meu pai passou a mão pelo rosto.
— Por quê?
— Isso não prova nada.
Helena abriu outra mensagem.
— Talvez isso ajude.
Era um e-mail recuperado de uma cadeia antiga de conversas com um dos maiores clientes da empresa, a rede Marvix.
Clara escrevera para um gerente comercial dizendo que precisava fazer um contrato entrar no trimestre corrente ou perderia uma parcela relevante de seu bônus anual.
Ela alegou que a frase estava fora de contexto.
Então Helena mostrou a resposta seguinte.
O gerente perguntava se as aprovações internas já estavam concluídas.
Clara respondera: Eu resolvo isso por aqui.
Meu pai empalideceu.
— Você adulterou documentos por causa de bônus?
— Não foi isso que aconteceu.
— Então me diga o que aconteceu.
Ela não conseguiu.
Foi nesse momento que percebi algo estranho.
Helena ainda parecia preocupada com outra coisa.
Mesmo depois de tudo que tínhamos mostrado, ela continuava olhando para o celular.
— Helena — perguntei.
— O que o cliente enviou?
Ela respirou fundo.
— Uma versão antiga de um contrato.
— Qual contrato?
— Marvix.
Projeto Serra Azul.
Meu pai parou de respirar por um instante.
Eu conhecia aquele nome.
Era um dos maiores acordos assinados no ano anterior.
Helena colocou duas versões lado a lado na tela.
Na primeira, aprovada pelo jurídico, havia uma cláusula de penalidade de quase dois milhões de reais se determinados níveis de serviço não fossem cumpridos durante seis meses consecutivos.
Na segunda, arquivada no nosso sistema e enviada para faturamento, a cláusula não existia.
— Quem removeu? — perguntei.
Lívia abriu o registro de versões.
— A alteração foi feita a partir de um usuário administrativo vinculado ao gabinete da presidência.
Meu pai bateu a mão na mesa.
— Eu nunca toquei nesse documento.
— Nós acreditamos nisso — disse Lívia.
Ela colocou sobre a mesa um registro de acesso físico.
— Mas alguém usou sua sala às 22h43 naquela noite.
Meu pai olhou para o papel.
Depois para Clara.
E ficou imóvel.
— Você estava comigo naquela noite.
Ela desviou os olhos.
— Pai…
— Você disse que precisava imprimir uma apresentação antes de irmos jantar.
Clara fechou os olhos.
A história começou a sair em pedaços.
Um cliente importante ameaçava adiar a assinatura por causa da cláusula de penalidade.
Clara temia perder