Eu observava de longe, tentando relaxar.
Até que vi Bianca levando minha filha para mais perto da área da churrasqueira.
A fumaça estava ficando mais intensa porque alguns convidados tinham começado a preparar carnes para a segunda rodada do jantar.
Eu caminhei até elas.
“Bianca, pode deixar a Sofia um pouco mais afastada daqui?” perguntei.
“Você sabe que a fumaça pode incomodar ela.”
Bianca virou os olhos.
“Camila, ela está brincando.
Você não pode controlar cada segundo da vida dela.”
Eu respirei fundo.
“Eu não estou tentando controlar.
Estou tentando evitar uma crise.”
Foi quando Helena se aproximou.
Ela segurava um prato nas mãos e tinha aquele sorriso calmo que sempre usava antes de dizer algo que me machucava.
“Minha filha, às vezes você precisa aceitar que crianças precisam criar resistência.”
Olhei para ela sem acreditar.
“Resistência não é colocar uma criança em uma situação que o médico pediu para evitar.”
Algumas pessoas próximas ficaram em silêncio.
Rafael percebeu a tensão e veio até nós.
Por um segundo, achei que ele iria me apoiar.
Mas ele apenas passou a mão no rosto.
“Camila, não faz isso aqui.”
A frase doeu mais do que o comentário da mãe dele.
Não faz isso aqui.
Como se defender nossa filha fosse uma cena.
Como se o problema fosse eu estar incomodando a família, e não o risco que Sofia corria.
Eu peguei a mão da minha filha e a tirei dali.
Poucos minutos depois, ela começou a tossir.
No início, foi uma tosse comum.
Aquele tipo que uma mãe tenta não transformar em pânico.
Então veio a segunda.
Depois a terceira.
E eu vi o rosto dela mudar.
“Sofia?”
Ela levou a mão ao peito.
Eu não lembro de ter atravessado o jardim.
Apenas lembro de estar ajoelhada no chão, abrindo minha bolsa, procurando o medicamento de emergência.
Mas quando abri o compartimento onde sempre guardava tudo organizado, meu coração parou.
O estojo não estava no lugar certo.
Eu tinha uma rotina.
Sempre deixava o inalador e os medicamentos no mesmo bolso interno.
Agora estavam misturados, como se alguém tivesse mexido ali.
“Cadê?” eu murmurei.
Minha voz saiu mais assustada do que eu queria.
Rafael se aproximou.
“O que aconteceu?”
“Alguém mexeu na minha bolsa.”
Ele olhou para a bolsa, depois para os familiares ao redor.
E eu vi algo estranho no rosto dele.
Não foi surpresa.
Foi medo.
Depois que Sofia recebeu atendimento e melhorou, fomos para o hospital.
Durante todo o caminho, Rafael ficou em silêncio.
Eu esperava uma explicação.
Uma pergunta.
Qualquer sinal de que ele estava tentando entender o que tinha acontecido.
Mas ele apenas dirigia.
Quando chegamos ao hospital, enquanto eu preenchia documentos, vi Rafael afastado no corredor falando ao telefone.
Ele desligou assim que percebeu minha aproximação.
“Quem era?” perguntei.
“Ninguém importante.”
A resposta ficou comigo.
Porque Rafael nunca foi bom em esconder quando estava mentindo.
Naquela madrugada, enquanto Sofia dormia, eu revisei mentalmente cada momento da festa.
A posição da minha bolsa.
Quem passou perto dela.
Quem sabia dos cuidados da minha filha.
Foi quando lembrei de uma coisa.
Antes do jantar, Bianca tinha comentado que queria organizar uma brincadeira para as crianças e havia pedido para pegar algumas coisas da minha bolsa.
Na hora, eu nem pensei.
Agora parecia impossível ignorar.
No dia seguinte, depois