que devo”, continuou.
“Devagar.
Arrumei trabalho.
Estou num quarto alugado.
Não é bonito.
Mas sou eu que pago.”
Olhei para ele por alguns segundos.
Depois abri mais a porta.
“Você pode jantar.”
Ele ergueu os olhos.
“Posso?”
“Pode.”
Então acrescentei:
“Mas a cadeira da cabeceira é minha.”
Dessa vez ele não riu.
“Eu sei.”
Marcelo sentou-se numa cadeira comum ao lado de Cecília.
Não lhe devolvi cartão algum.
Não lhe dei chave.
Não apaguei o que aconteceu.
Mas permiti que ele permanecesse naquela noite como convidado.
E, pela primeira vez em muitos anos, isso era exatamente o que ele era.
Um convidado.
Não o dono da minha casa.
Não o administrador da minha vida.
Não o herdeiro antecipado de um homem ainda vivo.
Quando servi o jantar, coloquei a nova travessa azul no centro da mesa.
Por um instante, pensei em Teresa.
Durante anos, eu acreditara que amar nosso filho significava poupá-lo de cair.
Aos setenta, aprendi outra coisa.
Às vezes, amar alguém significa sair da frente e finalmente permitir que o chão ensine o que você não conseguiu ensinar.
Ergui meu copo.
Minha casa estava tranquila.
Minhas contas estavam protegidas.
Minha cadeira estava sob mim.
E naquela noite ninguém confundiu minha bondade com fraqueza.