administrativo.
Camila tentou intervir.
“Foi só uma forma de explicar a situação.”
“Qual situação?”, perguntei.
“A parte em que eu ainda respiro?”
Ela desviou os olhos.
Marcelo bateu a mão na mesa.
“Chega desse teatro.
Eu sou seu único filho.
Essa casa vai ser minha de qualquer jeito.”
A frase fez mais estrago do que a tigela da noite anterior.
Laura fechou a pasta lentamente.
“Marcelo, recomendo que pare de falar.”
Ele riu.
“Quem é você para me dar ordem dentro da minha casa?”
Eu o corrigi.
“Minha casa.”
“Pai, eu moro aqui há quatro anos.
Eu cuido de tudo.”
“Diga uma conta da casa que você pagou no último ano.”
Ele não respondeu.
Peguei uma pasta que eu havia preparado durante a madrugada.
Energia.
Água.
Seguro.
Imposto.
Compras.
Reparos.
Todos pagos por mim.
“Você disse ontem diante de vinte pessoas que me sustentava”, falei.
“Aqui estão doze meses mostrando o contrário.”
Marcelo ficou vermelho.
Camila puxou o braço dele.
“Vamos subir.”
Laura falou antes que se movessem.
“Existe mais uma questão.”
Ela me explicou que, como ambos residiam ali havia anos, eu não deveria simplesmente trocar as fechaduras ou colocar seus pertences na rua.
Precisávamos seguir o procedimento legal adequado para encerrar a ocupação.
Era exatamente o que faríamos.
Naquela manhã, eles receberam notificação formal de que minha permissão para morarem na propriedade estava sendo encerrada conforme o processo aplicável.
Marcelo amassou o papel.
“Você está expulsando seu próprio filho por causa de uma piada?”
“Não.”
Apontei para os documentos do financiamento.
“Estou protegendo minha casa por causa de uma fraude.”
Camila começou a chorar.
“A gente estava desesperado.”
“Por quê?”
Ela olhou para Marcelo.
Foi aí que apareceu o segundo segredo.
A empresa deles não era apenas um projeto que precisava de capital.
Eles haviam recebido dinheiro de outras pessoas.
Marcelo convencera três amigos e um primo de Camila a investir na suposta empresa de comércio eletrônico, dizendo que possuía patrimônio suficiente para garantir o negócio.
O patrimônio era minha casa.
Ele havia mostrado aos investidores uma cópia antiga da escritura e falado como se já tivesse participação na propriedade.
Mais de US$ 96.000 haviam sido entregues a ele ao longo de seis meses.
Grande parte desaparecera em viagens, restaurantes, aluguel de um carro esportivo e compras que eu supunha terem sido feitas com o dinheiro dos meus cartões.
Os US$ 180.000 serviriam para apagar as dívidas, devolver parte aos investidores e manter a aparência de sucesso.
“Era temporário”, Marcelo insistiu.
“Uma fraude temporária continua sendo fraude”, respondi.
Na segunda-feira, fui pessoalmente ao banco com Laura.
A operação já estava bloqueada.
O departamento responsável recebeu minha declaração e preservou os registros.
Também entreguei às autoridades a documentação que possuía e o número do relatório de roubo de identidade.
Não houve cena cinematográfica com algemas na agência.
A realidade foi mais lenta.
Formulários.
Entrevistas.
Perícia de assinaturas.
Análise de endereços eletrônicos, históricos de acesso e documentos enviados.
Mas cada registro apontava na mesma direção.
Marcelo e Camila haviam criado o pedido.
Camila pagara a taxa de US$ 7.800 usando meu cartão.
Marcelo fornecera a cópia dos meus documentos, que ele obtivera de uma pasta guardada no escritório.
Naquela noite, ele tentou me convencer a retirar tudo.
“Pai, você vai acabar com a minha vida.”
Eu estava sentado na varanda