mencionava autorização para negociação patrimonial e garantia imobiliária.
Na última página aparecia uma assinatura com o nome de Augusto Ferreira.
Era parecida com a dele.
Mas não era dele.
O casal levou o documento para Roberto naquela mesma manhã.
Depois de examiná-lo, o advogado ficou sério.
— Isso muda a situação.
Augusto sentiu um peso no peito.
— É falsificação?
— Precisamos de perícia antes de afirmar formalmente.
Mas, se você não assinou, alguém tentou produzir um documento que aparenta dar poderes que nunca existiram.
Helena apertou as mãos no colo.
— Marcelo?
Roberto respondeu com cautela.
— Não sabemos quem preparou isso.
Augusto telefonou para o filho.
Marcelo atendeu no terceiro toque.
— Pai?
— Preciso que venha ao escritório do Roberto.
Do outro lado houve silêncio.
— Por quê?
— Encontramos um documento com minha assinatura.
Outro silêncio.
Mais longo.
— Que documento?
A pergunta foi suficiente para Augusto perceber que Marcelo sabia mais do que deveria.
— Venha e veja.
Uma hora depois, Marcelo entrou no escritório do advogado sozinho.
Parecia não ter dormido.
Roberto colocou a cópia diante dele.
Marcelo olhou rapidamente e fechou os olhos.
Augusto sentiu a decepção antes mesmo de ouvir a confissão.
— Foi você?
Marcelo passou as mãos pelo rosto.
— Eu não falsifiquei sua assinatura.
— Então quem fez?
— Um intermediário.
— Que intermediário?
Marcelo demorou a responder.
Meses antes, desesperado por crédito, conhecera um consultor financeiro por indicação de outro empresário.
O homem prometia estruturar garantias rapidamente para empresas em dificuldade.
Marcelo entregara cópias de documentos do pai e da casa, alegando que receberia autorização em breve.
O consultor produzira minutas cada vez mais agressivas.
Quando Marcelo hesitou, o homem disse que precisava apenas de uma assinatura para iniciar tratativas informais.
— Eu disse que não faria — Marcelo explicou.
Augusto apontou para o papel.
— Mas ele fez.
— Eu não sabia que tinha deixado isso aqui.
Helena encarou o filho.
— Por que estava escondido no nosso escritório?
Marcelo ficou pálido.
— Eu trouxe para comparar com a procuração antiga.
Depois ouvi vocês chegando e escondi.
Augusto levantou-se.
— Então você entrou no nosso escritório, mexeu nos documentos e escondeu um papel com assinatura falsa dentro da nossa casa.
— Eu estava desesperado.
— Pare de usar essa palavra como se ela apagasse suas decisões.
Marcelo começou a chorar pela primeira vez.
Não foi uma cena dramática.
Apenas sentou, curvou os ombros e cobriu os olhos.
— Eu estraguei tudo.
Helena permaneceu em silêncio.
Roberto explicou que o documento precisaria ser preservado e que o caso poderia exigir comunicação às autoridades, especialmente se tivesse sido usado em qualquer tentativa real de negociação.
Marcelo assentiu sem discutir.
Nos dias seguintes, a verdade completa começou a aparecer.
A empresa estava em situação ruim, mas não irreversível.
O problema maior era que Marcelo passara meses escondendo números, refinanciando dívidas e aceitando contratos pouco lucrativos para manter aparência de crescimento.
Com ajuda de um contador independente indicado por Augusto, descobriram que a empresa poderia sobreviver se vendesse alguns equipamentos, encerrasse uma obra deficitária por acordo e renegociasse prazos.
Não seria bonito.
Marcelo perderia o escritório luxuoso, reduziria equipe e provavelmente levaria anos para reconstruir crédito.
Mas não precisaria roubar o futuro dos pais para salvar o próprio orgulho.
Camila também