precisava de garantia para conseguir crédito.
Apenas isso.
Se a casa estivesse organizada dentro de uma estrutura familiar, eu poderia usar parte do patrimônio para conseguir fôlego.
— Usar nossa casa como garantia.
— Temporariamente.
— Sem nos contar.
— Eu contaria quando estivesse tudo encaminhado.
Augusto se levantou.
— Você pretendia apresentar uma decisão pronta para nós depois de colocar o imóvel em risco.
— Eu pretendia salvar minha empresa!
Foi a primeira vez que Marcelo gritou.
A máscara de confiança desapareceu.
— Vocês não entendem! Tenho quinze funcionários.
Tenho fornecedores me ligando todos os dias.
Tenho gente dependendo de mim.
Passei dez anos construindo aquele negócio.
Eu precisava de tempo.
— Então deveria ter pedido ajuda.
Marcelo riu sem humor.
— Pedir ajuda para você?
— Sim.
— Para ouvir que eu cresci rápido demais? Que assumi contratos demais? Que deveria ter sido mais cuidadoso?
Augusto ficou em silêncio por alguns segundos.
— Talvez você ouvisse tudo isso.
— Exatamente.
— E ainda assim seria melhor do que expulsar sua mãe da própria casa.
A frase esvaziou o pouco ímpeto que restava a Marcelo.
Ele sentou novamente.
Helena ficou observando o filho.
Augusto conhecia aquele olhar.
Não havia somente raiva.
Havia luto.
Não o luto por alguém que morreu, mas por uma ideia que deixara de existir.
A ideia de que o próprio filho jamais seria capaz de tratá-los daquela maneira.
Roberto organizou alguns papéis.
— Há outra questão — disse.
Augusto assentiu.
O advogado retirou da pasta os documentos preliminares de um fundo patrimonial familiar.
Helena franziu a testa.
— O que é isso?
Augusto segurou a mão dela.
— Eu ia conversar com você no sábado.
— Sobre o quê?
— Sobre proteger o que construímos.
Depois dos primeiros sinais de comportamento estranho de Marcelo, Augusto procurara Roberto.
Não queria agir contra o filho.
Queria apenas impedir que qualquer pessoa tomasse decisões em nome dele ou de Helena sem consentimento.
Começaram então a estruturar um plano para o futuro.
A residência continuaria pertencendo ao casal.
Se algum dia quisessem vendê-la, a decisão precisaria ser conjunta.
Parte do patrimônio seria reservada para despesas médicas e cuidados durante a velhice.
Outra parte, no futuro, seria destinada ao hospital infantil que tratara Júlia quando ela tinha oito anos.
O restante seria dividido entre os filhos depois da morte dos pais, seguindo regras claras.
Marcelo ouviu tudo em silêncio.
Quando Roberto terminou, ele perguntou:
— Então vocês vão tirar minha herança?
Helena soltou a mão de Augusto.
— Sua herança?
Marcelo percebeu imediatamente o peso da palavra.
— Mãe, eu não quis dizer desse jeito.
— De que jeito você queria dizer?
Ele não encontrou resposta.
Helena caminhou lentamente até a estante da sala.
Ali havia fotografias de décadas da família: Marcelo na escola, Júlia com aparelho nos dentes, aniversários, formaturas, viagens simples de carro, tardes no quintal.
Ela tocou a moldura de uma foto em que Marcelo tinha seis anos.
— Você aprendeu a andar de bicicleta nesta rua — disse.
— Seu pai passou três domingos consertando aquele portão quando você bateu nele jogando bola.
Tem marcas da sua altura na lavanderia porque você insistia em medir todo mês.
Cada canto desta casa tem alguma parte de você.
Marcelo abaixou os olhos.
— E mesmo assim você começou