Helena a quase quatro quilômetros da propriedade, sem sapatos, sem telefone e incapaz de ficar em pé.
Além disso, havia sangue no corredor de serviço da mansão.
Os Valença disseram que Helena tinha caído.
O investigador responsável, delegada Camila Rocha, não pareceu convencida.
Encontrei Camila no hospital perto do meio-dia.
“Seu genro já contratou três advogados”, ela disse.
“Isso não me surpreende.”
“A mãe dele afirma que Helena estava emocionalmente instável por causa da gravidez.”
Fechei os olhos por um segundo.
“Naturalmente.”
Camila observou minha reação.
“Senhor Augusto, preciso que não faça nada sozinho.”
“Não pretendo.”
Ela talvez não tenha acreditado totalmente.
Mas era verdade.
Eu não queria vingança.
Queria uma coisa muito mais perigosa para pessoas como os Valença: provas.
Às duas da tarde, Marcelo me ligou.
“Tenho algo estranho.”
“Fale.”
“Existem sete empresas ligadas indiretamente à holding Valença que pagaram milhões em consultorias para fornecedores praticamente sem atividade real.”
“Lavagem de dinheiro?”
“Talvez fraude fiscal.
Talvez desvio.
Ainda é cedo.
Mas olha isto: um contador chamado Otávio Braga aparece em praticamente todas.”
O nome me era familiar.
Eu o tinha visto em almoços da família.
Um homem magro, discreto, sempre carregando uma pasta de couro marrom.
“Continue.”
“Três antigos funcionários tentaram levantar acusações contra empresas do grupo nos últimos seis anos.
Dois desistiram.
Um desapareceu do mapa profissional e pessoal.”
“Nome?”
“Eduardo Salles.
Era auditor interno.”
Anotei.
Marcelo continuou:
“E tem mais.
Ontem à noite, às 22h41, o computador particular de Rafael acessou uma pasta criptografada ligada a uma das subsidiárias.
Pouco depois, houve uma tentativa de apagar registros remotos.”
“Como você sabe?”
“Uma empresa terceirizada de segurança em nuvem manteve logs automáticos.
Ainda não sei quem acessou.”
Mas eu sabia quem provavelmente tinha encontrado aquilo.
Helena.
A taça quebrada talvez tivesse sido apenas o estopim.
Às três e meia, Camila recebeu autorização judicial para ampliar as buscas na propriedade.
Eu fiquei do lado de fora.
Não porque alguém me proibisse de entrar.
Porque queria ver Rafael quando percebesse que o dinheiro não estava funcionando.
Ele apareceu na varanda pouco depois das quatro.
Mesmo cercado por agentes, parecia irritado, não assustado.
Camisa branca impecável.
Cabelo penteado.
Um advogado ao lado.
Teresa vinha alguns passos atrás.
Ela usava um casaco bege e mantinha o queixo erguido como se policiais invadindo sua casa fossem apenas empregados inconvenientes.
Então Rafael me viu atrás do portão.
Por um segundo, o rosto dele se contraiu.
Atravessou o jardim até onde eu estava.
“Você devia estar no hospital”, disse.
“E você devia estar preso.”
O advogado tocou seu ombro.
“Rafael, não converse.”
Ele ignorou.
“Helena perdeu o controle ontem.
Ela atacou minha mãe.”
“Minha filha pesa cinquenta e poucos quilos e está grávida.”
“Você não sabe como ela estava.”
“Então me conte.”
Ele abriu a boca, mas Teresa surgiu atrás dele.
“Rafael.
Chega.”
Seu tom chamou minha atenção.
Não era uma mãe acalmando um filho.
Era alguém impedindo um cúmplice de falar demais.
Foi quando meu telefone vibrou.
Hospital Santa Amélia.
Atendi imediatamente.
“Senhor Augusto? Aqui é o doutor Almeida.
Sua filha acordou.”
Meu corpo inteiro congelou.
“Helena está acordada?”
“Por períodos curtos.
Ela está fraca, mas respondeu a comandos e reconheceu a equipe.”
Olhei para Rafael.
Ele observava meu rosto, tentando interpretar a ligação.
“Posso falar com ela?”
“Por alguns segundos.”
Ouvi ruídos,