Cancelei o cartão da minha sogra e meu ex tentou arrombar minha porta

A pasta cinza continuava intacta.

Dentro dela estavam os documentos societários, relatórios de avaliação patrimonial e contratos que demonstravam a cadeia de controle da Farol Norte sobre a Maré Alta Crédito.

Não eram segredos escondidos da Justiça.

Tudo o que precisava ser declarado no processo de divórcio havia sido informado e revisado.

Eram apenas informações que Caio nunca tivera interesse em compreender.

Às 8h15, minha advogada chegou ao apartamento acompanhada de um especialista em segurança digital.

Ele examinou, com minha autorização, os registros pertinentes ao documento suspeito e orientou a preservação dos arquivos originais, sem alterar os metadados.

O administrador do crédito também enviou os registros de recebimento da suposta garantia.

A assinatura parecia ser uma imagem copiada de documentos antigos.

O formulário havia sido criado num sistema associado ao escritório administrativo dos hotéis Varela.

Aquilo não provava, sozinho, quem havia cometido a falsificação.

Mas era suficiente para exigir uma investigação séria e impedir qualquer tentativa de tratar o documento como uma autorização minha.

O que mais me perturbou foi descobrir que o arquivo mencionava uma garantia pessoal que eu jamais havia discutido com Caio.

Ele queria que meus investimentos particulares respondessem por uma obrigação empresarial da família dele.

Se a garantia tivesse sido aceita e se tornasse exigível, o risco financeiro seria enorme.

Às 9h30, entrei numa sala de reuniões de um escritório de advocacia próximo ao distrito financeiro.

Júlia estava à minha direita.

À esquerda, sentava-se Mário Figueiredo, diretor responsável pelas operações da Farol Norte.

Do outro lado da mesa estavam Caio, Celina, Lídia Monteiro, diretora financeira dos hotéis, e Clara Bennett, conselheira independente indicada por investidores minoritários.

Caio parecia não ter dormido.

Celina mantinha a bolsa sobre o colo e olhava repetidamente para a porta.

Quando me viu, soltou uma exclamação irritada.

— O que ela está fazendo aqui?

Caio virou para Júlia.

— Isso é alguma provocação?

Mário abriu uma pasta e começou a falar.

— Estamos reunidos para discutir a inadimplência do grupo Varela e uma proposta de reestruturação apresentada pela Maré Alta Crédito.

Caio apontou para mim.

— Minha ex-mulher não tem nada a ver com isso.

— Tem, sim — respondeu Mário.

Ele colocou sobre a mesa um organograma societário acompanhado de documentos públicos de registro e das respectivas certificações.

— A Maré Alta Crédito é controlada pela Farol Norte Participações.

A senhora Helena Reis é a controladora final dessa estrutura.

Ninguém falou imediatamente.

Celina foi a primeira a reagir.

— Isso é impossível.

Mário prosseguiu:

— O valor consolidado dos ativos da Farol Norte, na avaliação mais recente, é de aproximadamente 28,7 milhões de dólares.

A operação relacionada aos hotéis representa apenas uma parte dessa carteira.

Caio olhou os documentos.

Depois olhou para mim.

— Você é dona da empresa que comprou nossa dívida?

— Sou controladora da empresa que detém o crédito, Caio.

Ele se levantou parcialmente da cadeira.

— Então isso foi uma armadilha!

Júlia respondeu antes de mim.

— A aquisição foi feita por uma subsidiária regularmente constituída, mediante contrato com a instituição financeira vendedora.

Os registros e as notificações estão disponíveis.

E o patrimônio da senhora Helena foi declarado no processo de divórcio.

— Eu nunca soube de vinte e oito milhões!

— Seu advogado recebeu os anexos — Júlia respondeu.

— As avaliações constavam dos documentos financeiros.

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