Minha Filha Quis Me Declarar Incapaz e Tomar Minha Empresa

Minha filha segurou um casaco barato diante de mim e disse, com a tranquilidade de quem acreditava estar ensinando uma lição necessária:

— Mãe, compre suas roupas aqui.

É suficiente para você.

Na sua idade, precisa viver com mais modéstia.

Por alguns segundos, fiquei observando o cabide em suas mãos.

O tecido era áspero.

A costura da manga já estava torta.

Acima de nós, lâmpadas brancas deixavam a pequena loja de descontos ainda mais fria.

Um rádio tocava baixo perto dos provadores, e uma funcionária recolocava camisetas dobradas sobre uma mesa de plástico.

Minha filha, Renata, usava um blazer italiano, sapatos que custavam mais do que o salário mensal daquela funcionária e um relógio que ela havia comprado depois de receber o maior bônus de sua carreira.

O bônus tinha vindo da minha empresa.

— Talvez você tenha razão — respondi.

Ela sorriu.

Meu nome é Helena Duarte.

Eu tinha sessenta e nove anos naquela tarde e já havia aprendido que as pessoas revelam muito mais quando acreditam que venceram.

Por isso não discuti.

Trinta e oito anos antes, comecei uma pequena oficina de uniformes em Campinas.

Eu tinha duas máquinas usadas, quatro costureiras, um telefone que só funcionava quando não chovia e uma dívida que me tirava o sono.

Meu marido, Ricardo, trabalhava como técnico de manutenção e me ajudava depois do expediente.

Durante o dia, eu visitava restaurantes, clínicas e hotéis oferecendo amostras.

À noite, cortava tecido no chão da sala porque ainda não tínhamos uma mesa suficientemente grande.

A primeira encomenda relevante foi de cento e vinte uniformes para um hospital particular.

A segunda quase nos levou à falência porque o fornecedor entregou tecido defeituoso e eu me recusei a repassar o problema ao cliente.

Refizemos tudo.

Perdemos dinheiro, mas ganhamos reputação.

Aquela decisão construiu o que viria depois.

Quase quatro décadas mais tarde, a Duarte & Vale tinha quatrocentos e dezessete funcionários, três centros de distribuição e contratos em cinco estados.

Ricardo morreu sete anos antes, vítima de um infarto enquanto cuidava das roseiras do jardim.

Depois da morte dele, reduzi minha presença pública na empresa.

Não deixei de trabalhar.

Apenas deixei de aparecer.

Acompanhava relatórios, aprovava investimentos maiores, conversava semanalmente com o diretor financeiro e participava das reuniões estratégicas quando necessário.

A operação cotidiana ficava com os executivos.

Entre eles estava Renata.

Minha única filha começara na empresa aos vinte e nove anos.

Eu me recusei a colocá-la diretamente em cargo de liderança.

Ela passou por compras, logística e planejamento até se tornar diretora regional.

Era inteligente, rápida e, durante muito tempo, bastante dedicada.

Quando foi promovida a vice-presidente de operações, senti orgulho.

Talvez orgulho demais.

Eu não percebi quando a ambição deixou de ser desejo de construir e se transformou em desejo de possuir.

O marido dela, Augusto Ferraz, apareceu em nossas vidas alguns anos depois.

Advogado empresarial, educado, sempre impecavelmente vestido, ele tinha um talento especial para fazer perguntas que pareciam casuais.

No começo, gostei dele.

Depois comecei a notar que Augusto jamais perguntava por curiosidade.

Perguntava para localizar portas.

Durante um jantar de Natal, ele quis saber quem teria poder de voto se eu ficasse impossibilitada de exercer minhas funções.

Em janeiro, perguntou ao nosso diretor financeiro se a holding controladora tinha documentos públicos.

No mês seguinte, Renata apareceu em minha casa

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