No instante em que Clara atravessou a porta de casa naquela tarde de Natal, ouviu o marido antes mesmo de sentir o calor da sala.
— Onde diabos você estava?
Gabriel estava de pé na cabeceira da mesa, uma mão agarrada ao encosto da cadeira.
Sua família já estava sentada ao redor da toalha branca, cercada por velas, taças e uma decoração natalina tão perfeita que parecia montada para fotografia.
— Minha família está esperando há quase uma hora — ele continuou.
— Todo mundo com fome, e a mesa nem está pronta.
Clara fechou a porta atrás de si.
Flocos derretidos caíam de seu casaco sobre o piso escuro.
Seus dedos estavam congelados, mas a mão esquerda continuava dentro do bolso, apertando um envelope grosso.
Ela não respondeu imediatamente.
Durante anos, sempre respondera.
Explicava.
Justificava.
Tentava encontrar palavras capazes de provar que não era irresponsável, egoísta ou desorganizada, apesar da facilidade com que Gabriel conseguia fazê-la parecer tudo isso diante dos outros.
Naquele dia, porém, ela já não tinha nada para provar.
— Eu avisei que chegaria depois das cinco — disse.
Gabriel soltou uma risada curta.
— É Natal, Clara.
Será que por um dia você consegue não transformar seu trabalho em prioridade absoluta?
O pai dele, Augusto, desviou os olhos.
A mãe, Teresa, ajeitou o guardanapo sobre as pernas.
Bianca, irmã de Gabriel, fingiu uma concentração exagerada no celular.
Ninguém discordou dele.
Clara tirou as botas devagar.
Trabalhava como fisioterapeuta em uma clínica de reabilitação.
Naquela manhã, dois profissionais faltaram, e uma paciente idosa caiu na calçada quando deixava o prédio.
Clara permaneceu no local até que a ambulância chegasse e a família fosse localizada.
Gabriel sabia de tudo.
Sabia também que o almoço de Natal estava combinado para as cinco.
Mesmo assim, naquela manhã, anunciara no grupo da família que serviria a refeição às três.
Sem perguntar a Clara.
Sem considerar seu plantão.
E agora a culpava por não obedecer a uma mudança feita quando ela já estava trabalhando.
— Então? — ele perguntou.
— Vai arrumar a mesa?
Clara ergueu os olhos para o aparador.
Pratos limpos.
Talheres.
Guardanapos.
Taças.
Tudo a poucos passos de quatro adultos perfeitamente saudáveis.
— Vocês estavam esperando por mim para colocar pratos sobre a mesa?
Teresa respondeu antes do filho.
— Querida, não é só isso.
É uma questão de tradição.
Clara quase riu.
Tradição.
Era uma palavra muito usada naquela família sempre que alguém queria transformar conveniência em obrigação.
Gabriel deu um passo em sua direção.
— Não começa.
Foi quando ela sentiu o perfume.
Doce.
Floral.
Persistente.
O mesmo cheiro da noite anterior.
Gabriel havia voltado para casa pouco depois das onze, alegando ter ajudado um cliente com uma emergência.
Passara por Clara no corredor e ela sentira aquele perfume impregnado na gola de sua camisa.
Quando perguntou sobre isso, ele apenas riu.
— Você está cansada demais.
Vai dormir.
Ela insistiu.
Gabriel então segurou seu rosto com as duas mãos e respondeu em um tom manso que a irritou mais do que qualquer grito.
— Clara, seu trabalho está deixando você paranoica.
Depois tomou banho e colocou a camisa diretamente na máquina de lavar.
Só que o perfume não era a primeira pista.
Três semanas antes, Clara encontrara um recibo de estacionamento no bolso da jaqueta