financeiro, mas porque ela se tornara nossa piada particular.
Eu sempre me perdia em viagens; ele dizia que um casamento precisava de uma bússola, mesmo quando ninguém sabia onde estava indo.
— Não está ali.
Helena assentiu lentamente.
Celina desviou o olhar.
Eu vi.
— Está com você?
— Não seja ridícula.
Então ouvimos um clique metálico vindo da bolsa dela.
Helena estendeu a mão.
— Senhora Ferraz.
Celina segurou a bolsa contra o corpo.
— Esse objeto era do meu filho.
— E foi deixado a Sofia.
Entregue.
— Não.
Helena respirou fundo.
— Então chegamos à parte desagradável.
Ela retirou da maleta uma cópia de uma ordem judicial.
— Lucas apresentou uma declaração confidencial setenta e duas horas antes de morrer.
Também solicitou preservação de provas relacionadas a desvios financeiros, furto de propriedade intelectual e interferência em ativos corporativos.
Renato encarou a irmã.
— O que você contou a ele?
Mirela respondeu imediatamente:
— Nada.
Mas sua voz falhou.
Eu mal ouvi os dois.
— Preservação de provas? — perguntei.
— Que provas?
Helena me olhou com um cuidado que me assustou mais do que qualquer documento.
— O acidente de Lucas não está mais sendo investigado como simples perda de controle na chuva.
A sala pareceu encolher.
— O que isso significa?
— A perícia encontrou um corte limpo em uma linha do sistema de freio.
Não é conclusivo por si só, mas é incompatível com desgaste normal.
Meu corpo inteiro ficou frio.
Lembrei da manhã do acidente.
Lucas voltando do elevador porque havia esquecido a carteira.
Lucas beijando minha testa.
Lucas dizendo: “Hoje termino isso.”
Eu nunca perguntara o que era “isso”.
Olhei para Renato.
Ele levantou as mãos.
— Não olhe para mim.
Celina finalmente tirou a bússola da bolsa e jogou sobre a mesa.
— Aí está.
Satisfeita?
Helena não respondeu.
Pegou a bússola e girou a base um quarto de volta.
Um compartimento oculto se abriu.
Dentro havia um cartão de memória.
Mirela deu um passo para trás.
Renato sussurrou um palavrão.
— Vocês sabiam que isso estava aqui — eu disse.
Ninguém respondeu.
Helena encaixou o cartão em um leitor ligado ao tablet.
Surgiram pastas com datas, nomes e códigos.
Algumas continham extratos.
Outras, áudios.
Havia relatórios de auditoria, conversas exportadas, registros de acesso ao servidor da empresa e vídeos da garagem do prédio corporativo.
Uma pasta levava a data do acidente.
Helena não abriu de imediato.
— Lucas me pediu para seguir uma sequência específica.
Primeiro, precisava confirmar quem viria buscar a bússola.
Olhei para Celina.
— Então tudo isso foi uma armadilha?
— Não exatamente — disse Helena.
— Foi um teste de intenção.
Lucas sabia que, se morresse antes de formalizar as acusações, alguém tentaria apagar os rastros.
Ele só não sabia quem teria coragem de fazer isso no mesmo dia do funeral.
Três batidas fortes soaram na porta.
Helena já esperava por elas.
Entraram dois investigadores civis e uma perita da polícia.
O primeiro mostrou a credencial e informou que ninguém estava preso naquele momento, mas que a residência estava sendo tratada como local de preservação de evidências relacionadas à investigação da morte de Lucas e a possíveis crimes patrimoniais.
Celina protestou.
— Eu sou mãe dele.
O investigador respondeu sem alterar o tom:
— Isso não autoriza