pobres.
O que você acha que eu devo dizer a ela?
Álvaro ficou sem palavras.
Renata tomou coragem.
— Senhor Monteiro, eu não sabia quem o senhor era.
Daniel voltou o olhar para ela.
— Esse é exatamente o problema.
Ela engoliu em seco.
— Eu quis dizer que, se soubesse…
— Teria me tratado melhor?
Renata não respondeu.
— Eu não quero um hotel onde alguém precise ser dono para receber respeito.
Alguns hóspedes começaram a observar de longe.
Daniel não gostava de espetáculos.
Muito menos com Clara nos braços.
Ele se virou para o gerente.
— Quero falar com você amanhã às oito.
Álvaro assentiu imediatamente.
— Claro.
— E quero os registros de atendimento, reclamações, reservas recusadas no balcão e gravações dos últimos trinta dias.
A expressão do gerente mudou por uma fração de segundo.
Quase imperceptível.
Mas Daniel percebeu.
Aquilo não era apenas constrangimento.
Era medo.
— Há algum problema? — perguntou Daniel.
— Nenhum.
Foi Marta quem desviou os olhos.
Daniel notou.
— Marta, posso fazer uma pergunta?
Ela endireitou a postura.
— Claro.
— Isso já aconteceu antes?
Álvaro se mexeu.
— Senhor Monteiro, talvez seja melhor conversarmos em particular.
— Perguntei a ela.
Marta permaneceu calada por alguns segundos.
Daniel reconheceu o conflito em seu rosto.
Não era vontade de causar problema.
Era receio de se tornar o problema.
— Não foi a primeira vez — disse finalmente.
Renata ficou vermelha.
— Isso é absurdo.
Marta prosseguiu:
— Algumas pessoas recebem um tratamento diferente dependendo da roupa, do carro que chega na porta ou do jeito que falam.
— Você está acusando a equipe inteira? — perguntou Álvaro.
— Não.
A resposta foi firme.
— Estou dizendo o que vi.
Daniel olhou para o gerente.
— Amanhã, oito horas.
Clara puxou a gola dele.
— Papai, estou com sono.
Toda a tensão perdeu importância por um instante.
— Vamos subir.
Marta pegou um pequeno vaso transparente no carrinho e o entregou a Daniel.
— Para as flores.
Ele pareceu surpreso.
— Obrigado.
— Minha irmã gostava de lírios — disse Marta.
— Sei como é querer que durem um pouco mais.
Daniel entendeu que havia uma história ali, mas não perguntou.
No quarto, colocou Clara na cama, tirou os sapatos dela e cobriu-a.
A suíte era enorme.
Janelas do chão ao teto mostravam São Paulo iluminada pela chuva.
Havia frutas sobre a mesa, chocolates personalizados e um cartão de boas-vindas preparado pela direção.
Daniel olhou para tudo e sentiu amargura.
A mesma empresa capaz de preparar detalhes para o proprietário quase expulsara um homem cansado que parecia não ter importância.
Ele encheu o vaso de Marta e colocou os lírios perto da janela.
Seu celular vibrou.
Uma mensagem de Rafael, diretor de auditoria interna.
Daniel havia enviado a ele duas linhas ainda no elevador: Verifique discretamente o histórico recente do Imperial Plaza.
Quero tudo sobre recusas de hóspedes e reclamações de discriminação.
A resposta chegou minutos depois.
Precisamos conversar.
Encontrei um documento estranho em um arquivo compartilhado da unidade.
Logo veio uma fotografia.
Daniel ampliou.
No topo estava escrito: Perfil de Hóspede Prioritário.
Abaixo havia categorias internas.
Chegada por carro particular com motorista.
Vestimenta formal.
Cartão premium.
Potencial de consumo em restaurante e eventos.
Solicitação de benefício corporativo.
E, em outra coluna, uma