— Uma solução.
A primeira página tinha o título de um escritório particular de advocacia.
Abaixo, uma minuta de tutela temporária e uma procuração para decisões médicas.
Em outras páginas, havia uma declaração de suposta incapacidade emocional e um formulário em que Helena reconheceria não ter condições de cuidar de dois recém-nascidos ao mesmo tempo.
A beneficiária de tudo aquilo era Karen Vale, irmã de Gabriel.
Helena releu a primeira página.
— Isso é uma piada?
— Karen tentou engravidar por anos — disse Beatriz, como se estivesse explicando um arranjo de lugares num jantar.
— Você teve dois de uma vez.
Não precisa dos dois.
Helena sentiu um frio diferente do ar-condicionado.
— Eles não são objetos.
— Não dramatize.
Ela quer um menino.
Você fica com a menina.
Beatriz puxou a cadeira e sentou, como se esperasse apenas uma assinatura demorada.
— Gabriel ganha bem, mas criar gêmeos custa caro.
Você não trabalha.
Não tem renda.
Não tem estrutura.
Karen tem uma casa enorme em Bethesda e um quarto pronto.
Helena encarou a sogra.
A lógica era tão cruel que, por um instante, parecia falsa.
— Você planejou isso antes do parto?
Beatriz não respondeu diretamente.
— Planejamos ajudar.
A palavra planejamos ficou presa na mente de Helena.
Ela olhou outra vez para os documentos e notou algo ainda mais grave: uma declaração assinada eletronicamente pelo advogado Peter Sloan afirmava que o consentimento tinha sido discutido com Helena, em plena capacidade mental, às oito e quinze daquela manhã.
Às oito e quinze, Helena estava na recuperação pós-anestésica, com as pernas ainda dormentes.
— Quem preparou isso? — perguntou.
— Um amigo da família.
— Peter Sloan?
Beatriz estreitou os olhos.
— Então você sabe ler.
Ótimo.
Assine.
Helena quase sorriu, mas a dor no abdômen a impediu.
— Tire isso daqui.
— Não.
Beatriz levantou e foi até o berço de Tomás.
O menino dormia embrulhado num cobertor branco, uma pequena pulseira hospitalar presa ao tornozelo.
— Karen está no térreo — disse ela.
— Quanto mais rápido fizermos isso, menos confusão haverá.
Helena sentiu o corpo inteiro entrar em alerta.
— Não toque nele.
Beatriz pousou a mão na lateral do berço.
— Eu sou avó dele.
— E eu sou a mãe.
Afaste-se.
A voz de Helena saiu baixa, mas firme.
Beatriz puxou o berço alguns centímetros.
Helena tentou se erguer por reflexo.
A dor atravessou a incisão como uma lâmina quente.
O monitor ao lado da cama disparou um alerta de frequência cardíaca.
Mesmo assim, ela estendeu o braço e segurou o trilho do berço.
— Pare.
Beatriz virou-se de repente e empurrou a mão dela para longe.
O movimento fez Helena perder o equilíbrio contra a grade da cama.
O canto de sua boca bateu no metal.
Ela sentiu gosto de sangue.
Tomás acordou chorando.
Clara começou logo depois.
Por alguns segundos, havia apenas choro, alarme e o ruído da respiração de Helena.
Então ela apertou o botão vermelho de segurança na parede.
A reação foi imediata.
A enfermeira Mia entrou primeiro, seguida de dois agentes do hospital.
Um deles se posicionou entre Beatriz e a porta; o outro perguntou o que estava acontecendo.
Beatriz foi mais rápida.
— Ela está delirando — disse, apontando para Helena.
— Está medicada e tentou arrancar o