e quarenta da tarde, minha assistente, Beatriz, entrou na sala enquanto eu revisava um relatório de risco.
— Elisa, três pessoas estão na recepção dizendo que são sua família.
Ergui os olhos.
— Quem?
— Celina, Gustavo e Renata Duarte.
Sua mãe diz que precisa falar com você imediatamente.
Olhei para a câmera da recepção.
Celina estava perto do balcão, usando um casaco bege e o mesmo colar de pérolas que eu conhecia desde a adolescência.
Gustavo parecia ter envelhecido mais do que oito anos.
Renata mantinha os braços cruzados, olhando repetidamente para o telefone.
Por alguns segundos, desejei que todos fossem embora.
Mas percebi algo na pasta de couro que minha mãe apertava.
Na capa havia uma etiqueta de uma obra hidráulica que conhecíamos.
A Sentinela monitorava estruturas naquela região por contrato com um consórcio municipal.
— Pode trazê-los — respondi.
Minha mãe entrou primeiro.
Seus olhos percorreram os computadores, os modelos em exposição e as fotografias de equipes técnicas.
Parou diante de um prêmio de inovação, depois voltou a me encarar.
— Elisa.
Você está muito diferente.
— Boa tarde, Celina.
A expressão dela mudou quando ouviu o próprio nome.
Gustavo se aproximou da mesa.
— Precisamos resolver uma questão com urgência.
— Que questão?
— Uma certificação.
Uma formalidade referente às comportas do setor leste.
Eu conhecia o setor leste.
Aquele conjunto de três estruturas protegia parte do bairro do Arroio Branco, uma região baixa onde milhares de pessoas moravam a poucos metros do curso de um rio.
— Por que vocês vieram falar comigo?
Gustavo abriu a pasta, mas minha mãe colocou a mão sobre ela.
— Antes, quero que entenda uma coisa.
Estamos correndo o risco de perder tudo.
Seu irmão recebeu notificações do consórcio, os bancos estão cobrando garantias e houve uma denúncia sobre os equipamentos.
— Uma denúncia de quê?
— Irregularidades — Gustavo respondeu.
— Mas podemos resolver isso se você confirmar a conformidade técnica.
— Eu nunca realizei essa inspeção.
Ele desviou os olhos.
Celina colocou a pasta diante de mim.
— Não precisa ser difícil, filha.
Você tem uma empresa respeitada.
Uma assinatura sua pode evitar uma tragédia para todos nós.
Abri a primeira folha.
Meu nome completo aparecia como responsável pela avaliação das três comportas.
Havia um número de registro profissional, uma assinatura reproduzida e o símbolo da Sentinela Hídrica.
O relatório afirmava que as estruturas tinham passado por testes independentes três meses antes.
Eu nunca havia feito aqueles testes.
Nenhum profissional da minha empresa os havia autorizado.
— Isso é falso — falei.
Gustavo começou a gesticular.
— Foi preparado para agilizar a documentação.
A gente pretendia corrigir tudo depois.
— Usaram minha identidade profissional.
— Nós somos irmãos.
— Isso não autoriza você a falsificar um documento.
Minha mãe finalmente se sentou.
— Elisa, não transforme uma dificuldade administrativa numa questão moral.
Fiquei olhando para ela.
Oito anos haviam passado, mas a frase parecia vir diretamente do restaurante onde mandara retirar meu prato.
— Quando você diz dificuldade administrativa, está falando de quê exatamente?
Renata respondeu antes do irmão.
— As peças instaladas não são as que foram aprovadas no projeto.
Gustavo se virou com violência.
— Renata, cala a boca.
Ela recuou, mas permaneceu de pé.
Eu examinei os números de série no documento.
Algumas descrições