falar rapidamente.
“Eu sei que errei, mas—”
“Não existe ‘mas’.”
Silêncio.
“Você vai poder pedir desculpas quando Marina quiser ouvir.
E Sofia também.
Não quando for melhor para você.”
Foi então que Marina tocou meu braço.
“Pergunta sobre a caixa.”
“Que caixa?”
Ela olhou para o telefone.
“A caixa no escritório do seu pai.”
Meu pai havia morrido quatro anos antes.
O escritório permanecia praticamente igual desde então.
Minha mãe guardava documentos antigos numa caixa de madeira no armário inferior da estante.
“O que tem essa caixa?”
Marina hesitou.
“Há alguns meses, procurei um carregador lá.
A caixa estava aberta.
Eu vi um envelope com meu nome.
Não mexi.”
Do outro lado, minha mãe parou de respirar por um instante.
Eu ouvi.
“Mãe?”
Nenhuma resposta.
“O que tem no envelope?”
Quando Helena voltou a falar, sua voz estava diferente.
“É uma carta do seu pai.”
Marina ficou imóvel.
“Para ela?”
“Sim.”
“Por que meu pai escreveria uma carta para Marina?”
Minha mãe demorou tanto que achei que a ligação tivesse caído.
“Porque ele sabia que estava morrendo”, disse finalmente.
“E porque havia uma coisa que ele queria que ela soubesse.”
Senti um arrepio.
Meu pai adorava Marina.
Talvez mais do que minha mãe jamais tivesse admitido.
Durante sua doença, era Marina quem organizava exercícios, consultas, medicações e longas caminhadas pelo quintal quando ele ainda tinha forças.
“Por que você nunca entregou?”
Minha mãe começou a chorar novamente.
“Porque eu li.”
Marina ficou de pé.
“O que dizia?”
“Eu não consigo contar por telefone.”
“Então eu vou buscar.”
Marina segurou meu braço.
“Rafael, não precisa.”
“Precisa, sim.”
Duas horas depois, deixamos Sofia com uma amiga de confiança e voltamos à casa de minha mãe.
A mesa de Natal ainda estava parcialmente montada.
Taças vazias, guardanapos dobrados, pratos cobertos com plástico.
Parecia a cena congelada de algo que ninguém tivera coragem de limpar.
Helena estava sentada na sala.
Quando Marina entrou, minha mãe se levantou.
Instintivamente, Marina recuou meio passo.
Minha mãe viu.
Seu rosto desmoronou.
“Eu não vou chegar perto de você”, disse.
“Eu só…
preciso dizer que sinto muito.
Não espero perdão.”
Marina permaneceu em silêncio.
Minha mãe apontou para o corredor.
“A carta está no escritório.”
Fomos os três.
Helena abriu a caixa de madeira e retirou um envelope amarelado.
Na frente, a letra do meu pai formava apenas duas palavras: Para Marina.
Ela entregou o envelope.
Marina não abriu imediatamente.
“Você leu?”
Minha mãe assentiu.
“Logo depois que ele morreu.”
“E escondeu por quatro anos?”
Helena baixou os olhos.
“Sim.”
Marina abriu o envelope.
Eu reconheci a letra de meu pai nas folhas.
Ela começou a ler em silêncio.
Depois de alguns parágrafos, levou a mão à boca.
“O quê?”, perguntei.
Ela me entregou as páginas.
Meu pai começava agradecendo a Marina por tudo que fizera durante sua doença.
Depois dizia que se arrependia de ter permanecido calado durante anos enquanto minha mãe fazia comentários sobre sua origem.
Mas a parte que explicava por que Helena escondera a carta vinha depois.
Meu pai havia mudado seu testamento meses antes de morrer.
Não para deixar dinheiro a Marina.
Para criar um fundo educacional diretamente para Sofia e outro destinado a financiar bolsas de estudo para jovens da região onde Marina crescera.
Ele havia pedido que Marina ajudasse a selecionar