“Ah.
Tem aquele gosto de comida feita para alimentar muita gente gastando quase nada.”
Henrique riu sem graça.
“Patrícia.”
“O quê? Eu gostei.”
Marina apoiou o garfo.
“Você pode dizer que não gostou.
Não precisa transformar tudo numa observação sobre minha infância.”
Patrícia recostou-se na cadeira.
“Você é muito sensível.”
“Não.
Eu só estou cansada.”
Minha mãe interferiu.
“Marina, não vamos criar uma situação por causa de uma torta.”
Foi aí que Sofia levantou os olhos.
Ela estava sentada à minha direita e olhava para a mãe com uma atenção assustada.
Marina percebeu também.
“Não é por causa da torta”, disse.
Patrícia girou a taça entre os dedos.
“Então diga logo qual é o problema.”
Marina respirou devagar.
“O problema é você transformar minha origem numa piada toda vez que entra numa sala comigo.
E fazer isso na frente da minha filha.”
A expressão de Patrícia endureceu.
“Talvez se você não tivesse tanta vergonha da sua origem, meus comentários não incomodassem tanto.”
Marina ficou de pé.
Eu me preparei para levantar também.
Não tive tempo.
Minha mãe já estava em movimento.
Helena sempre dominou ambientes com autocontrole.
Nunca foi uma pessoa explosiva.
Por isso, quando atravessou a pequena distância entre a cabeceira e Marina, ninguém entendeu imediatamente o que aconteceria.
O tapa ecoou pela sala.
Marina virou o rosto.
Sofia soltou um som curto, como se tivesse perdido o ar.
Por dois segundos, minha mãe pareceu tão surpresa quanto todos nós.
Então apontou para a porta.
“Chega.
Você nunca vai deixar de ser gente de cortiço.
Pegue sua filha e saia da minha casa.”
O rosto de Marina estava vermelho onde os dedos tinham acertado sua pele.
Ela não respondeu.
Sofia começou a chorar.
Eu olhei para minha mãe.
Ela ainda estava com o braço parcialmente erguido.
Depois olhei para Henrique.
Meu irmão mantinha os olhos baixos.
Patrícia estava imóvel, mas havia algo em seu rosto que me chamou atenção: não era choque.
Era satisfação tentando se esconder.
Naquele instante, uma coisa dentro de mim ficou extraordinariamente simples.
Eu havia passado anos tentando preservar uma paz que nunca tinha sido paz para Marina.
Afastei a cadeira.
“Sofia, pegue seu casaco.”
Minha mãe franziu a testa.
“Rafael.”
“Não.”
Ela piscou.
“Não o quê?”
“Não vou discutir.
Não vou ouvir justificativa.
Não vou pedir para Marina esquecer.
Nós vamos embora.”
Subi para o quarto de hóspedes.
Minhas mãos tremiam enquanto eu colocava roupas dentro da mala, mas não era de medo.
Era raiva acumulada contra aquela casa e contra mim mesmo.
Henrique apareceu na porta.
“Você está exagerando.”
Eu me virei.
“Ela bateu na minha esposa.”
“Eu vi.
Foi errado.
Mas você conhece a mãe.
Ela perdeu a cabeça.”
“Então ela vai aprender o que acontece depois que perde.”
Meu irmão entrou no quarto.
“Não transforma isso numa ruptura familiar.”
Fechei a mala.
“Henrique, a ruptura aconteceu lá embaixo.
Eu só estou reconhecendo.”
Ele não respondeu.
Marina entrou segurando a mão de Sofia.
Minha filha enxugava o rosto com a manga do vestido.
“Papai, a vovó não gosta mais da mamãe?”
Eu me ajoelhei diante dela.
“Sua mãe não fez nada de errado.
O que sua avó fez foi errado.”
Sofia olhou para Marina.
“A gente vai voltar amanhã?”
Marina desviou o rosto.
“Não sei, meu amor.”
Naquele momento, eu soube que