Meu genro tentou me expulsar sem saber de quem dependia sua empresa

é isso.

— Não.

— Sabe, sim.

Ela puxou a página.

No documento, Renato reconhecia uma dívida pessoal com Letícia e declarava que parte de uma futura participação em sua empresa seria destinada a ela.

Mas havia uma cláusula pior.

O texto mencionava valores transferidos para pagamento de despesas de residência compartilhada.

Marina leu duas vezes.

— Residência compartilhada?

Renato passou a mão pelo cabelo.

— Posso explicar.

— Então explica.

Ele começou dizendo que Letícia era consultora da agência.

Depois disse que precisava manter um apartamento perto de clientes.

Em seguida afirmou que não queria preocupar Marina porque a empresa atravessava uma fase difícil.

Cada explicação criava outra pergunta.

Até Marina perguntar:

— Você dorme lá?

Ele não respondeu.

Minha filha fechou os olhos.

Naquele instante, toda a postura dela mudou.

Ela não era mais a mulher que havia rido da minha aposentadoria.

Era uma mulher percebendo que o homem ao lado dela escondia uma vida inteira atrás de planilhas e desculpas.

— Há quanto tempo? — perguntou.

— Não é o que você está pensando.

— Há quanto tempo, Renato?

— Alguns meses.

A voz dela caiu.

— Você está tendo um caso?

Ele desviou os olhos.

A resposta estava dada.

Marina se levantou tão depressa que a cadeira bateu na parede.

— Você me fez acreditar que estávamos economizando para comprar nosso apartamento.

— Eu estava tentando proteger a empresa.

— Você usou dinheiro emprestado para pagar apartamento para outra mulher.

— Não foi assim.

— Então como foi?

Renato elevou a voz pela primeira vez.

— Eu estava sufocado! Tudo aqui gira em torno do seu pai.

A casa dele.

As regras dele.

A opinião dele.

Você nunca percebeu?

Olhei para Marina.

Ela também percebeu o que havia de absurdo naquela acusação.

Nos últimos três anos, eu havia interferido o mínimo possível.

Quase todas as regras haviam sido criadas por eles.

Eu estava apenas começando a entender que Renato precisava transformar minha generosidade em opressão para justificar o ressentimento que sentia.

— Então sua solução foi roubar sua própria empresa e trair sua esposa? — perguntei.

— Não roubei nada.

— Usou recursos vinculados a uma finalidade empresarial para despesas pessoais enquanto deixava de pagar o credor.

Ele apontou um dedo para mim.

— Você está gostando disso.

— Não.

E era verdade.

Eu não sentia prazer.

Sentia vergonha por ter demorado tanto a perceber.

Marina começou a chorar em silêncio, mas não de forma descontrolada.

As lágrimas simplesmente desceram enquanto ela mantinha os olhos fixos no documento.

— Pai — disse ela sem me olhar.

— Você sabia do caso?

— Eu suspeitava havia dois dias.

Não tinha certeza.

Ela assentiu devagar.

Renato pegou o casaco sobre a cadeira.

— Vou sair.

Quando vocês dois terminarem essa encenação, voltamos a conversar.

— Você não volta — respondi.

Ele parou.

— Como é?

— Você me deu duas opções.

Agora eu vou lhe dar uma.

Saia desta casa hoje.

— Marina mora aqui.

— Marina pode ficar pelo tempo necessário.

Você, não.

Ele riu nervosamente.

— Você não pode simplesmente me expulsar.

— Posso retirar minha autorização para você residir aqui.

Helena já preparou uma notificação formal.

Amanhã, ela será entregue.

Ele olhou para Marina, esperando apoio.

Ela não ofereceu nenhum.

— Você vai deixar ele

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