momento para jogar Pip no chão.
Ethan pegou o coelho antes de mim.
— E este é claramente o passageiro que manda em todos nós.
Ava riu.
Foi a primeira coisa leve que eu ouvi em dias.
Durante a hora seguinte, Ethan se mostrou uma presença estranhamente tranquila.
Ele não perguntou por que eu não usava aliança.
Não quis saber onde estava o pai de Ava.
Não tentou transformar minha vulnerabilidade em oportunidade para se aproximar.
Apenas ajudou.
Segurou minha garrafa enquanto ajeitei Ava.
Pegou Pip do chão mais duas vezes.
Dobrou um guardanapo até parecer um cachorro torto e fez Ava gargalhar.
Eu estava começando a relaxar quando percebi que várias pessoas olhavam para nossa fileira.
No início, pensei que o problema ainda fosse a criança.
Depois notei os celulares.
Um rapaz algumas fileiras adiante se virou três vezes, sempre com a câmera levantada.
Duas estudantes cochicharam, olharam para Ethan e fingiram voltar ao telefone.
Um homem de terno passou pelo corredor e diminuiu o passo quando chegou perto de nós.
Ethan percebeu também.
Seu corpo ficou mais rígido.
Uma comissária se aproximou, viu seu rosto e quase disse alguma coisa antes de se controlar.
— Posso trazer algo para o senhor?
— Água, por favor.
Ela assentiu e seguiu adiante.
Esperei alguns segundos.
— Você quer me contar por que metade do avião parece saber quem você é?
Ethan soltou o ar lentamente.
— Eu esperava que ninguém me reconhecesse hoje.
— Isso não respondeu à pergunta.
Ele olhou para um celular surgindo entre dois assentos.
— Não.
Mas acho que primeiro preciso resolver outro problema.
Então se inclinou para mim.
— Posso pedir uma coisa estranha?
— Dependendo do quão estranha.
— Você fingiria que dormiu no meu ombro por alguns minutos?
Fiquei olhando para ele.
— Essa definitivamente passou do limite normal de estranheza.
Pela primeira vez, Ethan pareceu constrangido.
— Eu sei.
— Por quê?
Ele apontou discretamente com os olhos para o homem que segurava o telefone.
— Se acharem que sou apenas um homem viajando com a esposa cansada e a filha pequena, talvez parem de filmar.
— E você acha que eu pareço sua esposa?
— Neste momento, acho que eles acreditariam em qualquer explicação que parecesse entediante.
Quase ri.
— Você ainda não explicou por que está sendo filmado.
— Explico assim que pousarmos.
Prometo.
Eu deveria ter recusado.
Mas havia algo quase humano demais no desconforto dele.
Ethan não parecia gostar daquela atenção.
Parecia suportá-la.
Olhei para Ava, já sonolenta contra meu peito.
— Cinco minutos.
— Cinco minutos.
Inclinei a cabeça sobre o ombro dele.
Ethan ficou imóvel, como se tivesse medo até de respirar de maneira errada.
Ava aconchegou Pip debaixo do queixo e adormeceu de verdade.
Fechei os olhos.
Ouvi um clique abafado.
Depois outro.
E um terceiro.
Alguns minutos mais tarde, Ethan murmurou:
— Acho que funcionou.
Quando levantei a cabeça, havia menos celulares apontados para nós.
— Agora você me deve uma explicação muito boa.
— Você vai receber.
Não recebi imediatamente porque, no segundo em que o avião pousou e os telefones recuperaram sinal, dezenas de aparelhos começaram a vibrar ao mesmo tempo.
O de Ethan foi um deles.
O meu também.
Tirei o celular da bolsa e vi trinta e sete notificações.
A