Durante muito tempo, também procurei uma maneira de voltar.
Mas havia coisas que eu não conseguia explicar por cartas, e tive medo de que as pessoas que nos separaram machucassem Daniel ou minha filha.
Luna é sua neta.
Ela não tem culpa das escolhas que fizemos, nem das mentiras que nos contaram.
Se você a encontrar, por favor, não a julgue pelo casaco que veste ou pelo lugar onde dorme.
Ela merece ser amada antes de saber qualquer coisa sobre dinheiro ou sobrenomes.
A caixinha foi o único objeto da minha infância que consegui guardar.
A música de vovó me lembrava que, em algum lugar, eu ainda tinha uma família.
Se quiser descobrir o que aconteceu, procure Augusto Ferraz.
Papai deixou uma herança para os descendentes de Beatriz Valença.
Os documentos estão protegidos por uma cláusula que só pode ser aberta quando um herdeiro for identificado.
Eu queria ter tido coragem de voltar antes.
Perdoe-me por não ter conseguido.
Beatriz.”
Isadora não conseguiu terminar a leitura sem chorar.
A carta confirmava que sua filha havia vivido durante anos longe dela, criando uma criança que ninguém da família conhecia.
Mas também revelava que a separação talvez não tivesse acontecido apenas por causa de uma discussão entre mãe e filha.
Alguém havia impedido Beatriz de voltar.
Isadora levantou-se e pegou o telefone.
— Tragam o carro para a entrada.
Quero que uma equipe médica examine essa menina imediatamente.
E encontrem Augusto Ferraz.
Digam que é uma emergência familiar.
Em menos de vinte minutos, Luna estava sentada num sofá aquecido no saguão da ópera, com uma manta sobre os ombros e uma xícara de chocolate quente nas mãos.
Miguel permaneceu ao lado dela, contando histórias sobre seu cachorro e perguntando qual era sua música favorita.
Pela primeira vez em semanas, Luna estava aquecida sem precisar se preocupar com o lugar onde dormiria.
Quando Augusto Ferraz chegou, carregava uma pasta de couro preta e um envelope lacrado com o selo da família Valença.
O advogado tinha acompanhado a família por mais de trinta anos.
Ao ver a caixinha de música, seus olhos se arregalaram.
— Então é verdade — murmurou.
— A filha de Beatriz está viva.
Isadora se colocou diante dele.
— O que você sabe, Augusto?
O advogado pediu que todos se sentassem.
Explicou que o pai de Isadora, fundador do império Valença, havia criado um fundo fiduciário para proteger a participação acionária de Beatriz.
Caso ela morresse, suas ações passariam aos descendentes diretos.
Como a família acreditava que Beatriz não tinha filhos, a participação permanecera bloqueada, sem beneficiário reconhecido.
O fundo não era pequeno.
Incluía propriedades, investimentos internacionais e 51% das ações de uma divisão estratégica do Grupo Valença, com patrimônio avaliado em aproximadamente 2,8 bilhões de dólares.
— Se a identidade de Luna for confirmada, ela será a beneficiária legal desse patrimônio — declarou Augusto.
— Não por favor da família, mas por direito próprio.
Os convidados que ainda observavam a cena ficaram em silêncio.
Alguns minutos antes, tinham visto Luna como uma menina sem importância.
Agora, descobriam que ela poderia ser a acionista controladora de uma das maiores fortunas privadas do país.
Isadora, porém, não parecia interessada no dinheiro.
— Quero saber por que minha filha nunca recebeu minhas mensagens.
Quero saber quem falsificou as informações sobre sua morte.