tem dinheiro suficiente para comprar dez apartamentos.”
Ali estava a lógica dela.
Se eu tinha muito, tirar de mim não contava.
Helena puxou a segunda pasta.
“Há outro assunto.”
Minha mãe fechou os olhos por um instante.
Foi pequeno.
Mas eu vi.
E soube que o pior ainda não tinha aparecido.
Helena abriu uma sequência de extratos.
“Depois que você pediu a revisão, identificamos transferências recorrentes da conta de emergência.”
Olhei os números.
Nenhum deles era gigantesco.
Era justamente isso que tornava o padrão fácil de ignorar.
Mil e oitocentos reais.
Dois mil e quatrocentos.
Setecentos.
Três mil e cem.
Quinhentos.
Ao longo de vinte e dois meses, os valores haviam sido enviados para uma pequena empresa de consultoria.
“De quem é?” perguntei.
Helena virou uma página.
O nome de Renata aparecia no quadro societário.
Minha irmã se sentou.
“Eu posso explicar.”
“Quanto?”
Helena respondeu antes dela.
“Cento e vinte e sete mil reais identificados até agora.”
Senti meu maxilar travar.
“Você tirou cento e vinte e sete mil da conta de emergência?”
Renata ergueu as mãos.
“Era investimento.”
“Meu investimento?”
“Eu ia devolver quando o negócio começasse a dar retorno.”
“Eu sabia do negócio?”
“Não.”
“Então como pode chamar de investimento?”
Ela perdeu a paciência.
“Porque você teria dito não!”
Minha mãe falou imediatamente:
“Eu autorizei.”
Olhei para ela.
“Você não podia autorizar.”
“Era dinheiro da família.”
“Era dinheiro meu reservado para emergências da família.”
“Qual é a diferença?”
“Consentimento.”
A palavra ficou entre nós.
Minha mãe respirou fundo.
“Seu pai teria vergonha de ver você tratando sua própria mãe como criminosa.”
Aquilo costumava funcionar.
Ela mencionava meu pai sempre que queria que culpa substituísse argumento.
Dessa vez, não funcionou.
“Meu pai também me ensinou a não pegar o que não é meu.”
Renata se levantou.
“Então é isso? Você vai denunciar a gente?”
“Ainda não decidi o que farei sobre o dinheiro.”
Minha mãe riu sem humor.
“Claro.
Marina colocou isso na sua cabeça.”
Meu estômago apertou.
“Não coloque minha esposa nisso.”
“Ela já está nisso desde o dia em que apareceu.”
“O que isso significa?”
Minha mãe olhou para Helena, depois para mim.
“Significa que você começou a mudar depois que casou.”
“Eu amadureci.”
“Você parou de pensar na própria família.”
“Marina é minha família.
Minha filha é minha família.”
O rosto dela se contraiu.
Foi então que uma ideia se encaixou.
Dois meses antes, eu havia atualizado meu planejamento patrimonial por causa do nascimento da bebê.
Marina passaria a ser a principal beneficiária em determinadas situações.
Nossa filha seria protegida por um fundo.
Algumas autorizações antigas seriam revisadas.
Minha mãe sabia que eu havia me reunido com Helena.
Eu mesmo tinha comentado, sem detalhes.
“Foi isso?” perguntei.
Ela franziu a testa.
“O quê?”
“Você começou a atacar Marina depois que soube que eu estava reorganizando meu patrimônio.”
Renata olhou para nossa mãe.
“Mamãe?”
Minha mãe demorou demais para responder.
Helena fechou uma das pastas.
“Daniel atualizou a estrutura patrimonial antes do nascimento da filha.
Isso não retirou nada de ninguém, porque ninguém aqui era proprietário desses bens.”
Minha mãe se levantou.
“Eu fiquei com medo de ele entregar tudo para alguém que conhece há quatro anos.”
“Ela é minha esposa.”
“Eu sou sua mãe há trinta e seis anos!”
“E você usa isso como se fosse