seguiriam os procedimentos apropriados para preservar o aparelho.
Renata concordou em mostrar as mensagens.
Havia semanas de conversas.
Bruno enviava horários, valores e instruções.
Nunca escrevia claramente “roube” ou “fraude”.
Usava expressões como “lote”, “teste”, “limpeza” e “conversão”.
Mas naquela manhã Renata havia perguntado:
“E se travar?”
A resposta dele destruía qualquer aparência de inocência.
Se algo desse errado, ela deveria dizer que Clara fizera a compra sozinha.
Bruno prometia cuidar do relatório interno.
Minha irmã começou a soluçar.
Clara apenas apertou minha mão.
Marcelo continuou examinando a conversa e encontrou uma fotografia de uma folha impressa com nomes, horários e partes de códigos de funcionários.
Ao lado do nome de Clara havia uma anotação: seria a última operação antes de uma auditoria interna.
Outra instrução mencionava a câmera 3.
Helena ficou pálida.
A câmera 3 cobria o corredor do escritório administrativo.
Quando foram verificar as gravações da noite anterior, seis horas estavam marcadas para exclusão administrativa.
E o pedido aparecia registrado sob a credencial de Helena.
Ela ficou sem falar por vários segundos.
Bruno tinha tentado usar a senha da própria gerente.
Mas cometera um erro.
Helena possuía autenticação em duas etapas para exclusões de vídeo.
O pedido havia sido iniciado, mas nunca confirmado no celular dela.
As gravações continuavam no servidor, apenas sinalizadas como pendentes.
A equipe cancelou a exclusão e abriu o período correspondente.
O vídeo mostrava Bruno entrando no escritório depois do fechamento parcial da loja.
Ele usava o próprio crachá para abrir a porta.
Vinte minutos depois, saía carregando uma pasta.
Mais tarde, aproximava-se do computador de Helena quando ela estava no estoque resolvendo um problema com uma entrega.
A imagem não mostrava o que ele digitava.
Mas o sistema registrava o terminal usado.
Era o mesmo computador do pedido de exclusão.
Marcelo pediu que ninguém confrontasse Bruno com essa descoberta até a chegada da polícia, que já havia sido chamada pela agressão contra Clara e pela suspeita de fraude.
Quando dois policiais chegaram, a situação mudou de uma investigação corporativa para algo muito mais sério.
Clara prestou seu depoimento comigo presente.
Contou sobre a redefinição de senha, sobre Renata aparecer no caixa pouco antes do fim do turno e sobre tentar retirar os cartões quando percebeu que sua sessão estava aberta.
“Ela sabia minha senha?”, um dos policiais perguntou.
Clara olhou para Renata.
“Ela digitou sem me perguntar.”
Renata admitiu que Bruno lhe passara o código naquela tarde.
Também admitiu o tapa.
Eu achei que seria a parte mais difícil de ouvir.
Não foi.
A parte mais difícil veio quando um dos investigadores trouxe Júlia, a funcionária de dezesseis anos, acompanhada da mãe.
Júlia havia sido advertida um mês antes por uma diferença de quase R$ 7.000 registrada em seu código.
Não fora demitida porque a loja não conseguira provar que ela realizara as ativações, mas perdera temporariamente o direito de operar o caixa principal.
Ela entrou na sala olhando para o chão.
Quando viu Clara, perguntou:
“Aconteceu com você também?”
Clara assentiu.
Júlia começou a chorar.
Durante semanas, ela acreditara que podia ter cometido algum erro e esquecido.
Bruno lhe dizia que funcionários jovens eram distraídos, que talvez ela tivesse compartilhado a senha sem perceber.
Outro funcionário, Mateus, foi contatado por telefone.
Ele confirmou que Bruno também observara sua troca de senha.
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